sábado, 27 de março de 2010

Sobre esse tal de BBB10...

Quanta polêmica um programa de entretenimento pode causar?

Muita. Mas no BBB10, a polêmica tem nome: Marcelo Dourado.

Lutador (não muito bem-sucedido) e "repetente" do programa (já havia participado em outra edição).

Começou o jogo isolado, discriminado pela sua postura bruta, além de já ter tido a sua vez. Em uma conversa com outros participantes, que vêm cobrar uma mudança do lutador, ele chora. Sensibilizado, o povo toma as dores, e a popularidade de Dourado aumenta.

Entra um outro elemento. Pela 1a vez, três participantes eram abertamente homossexuais, os "Coloridos". O resto, digamos "preto-e-branco", lidava com naturalidade com isso, tornando este BBB o mais liberal de todos. Mas havia Dourado.

Incomodado, ele não entrou na onda da diversidade. Em brados de "Orgulho Hétero", declarou asneiras como que apenas homossexuais pegavam AIDS, comparou-os (sem pensar) a bandidos, além de reagir com nojo e desprezo quando o assunto tratava de gays. A sociedade brasileira, ainda não habituada com homossexuais em seu círculo social e acostumada a velhos preconceitos, se identificou com o lutador. Era muita liberdade, liberalidade, que, aos olhos da população conservadora, se tornou libertinagem. Resultado: Dourado torna-se o favorito do programa.

Disse mais: declarou que, se estivesse fora do confinamento, quebraria os dedos de uma participante (se fosse homem) e a mandaria ao hospital por ter apontado o dedo a ele; que chutava poodles pra desestressar; que o participante drag-queen deveria ser homem, "apesar" de viado; e mais recentemente, que a gripe suína não passava de um golpe de mídia.

Na análise de um psicanalista, Dourado é "manipulador, ditatorial, dissimulado e violento". Apesar disso, ele não é o pior dos seres humanos; despertou, no entanto, o pior em alguns seres humanos. Tornou-se símbolo da "resistência hetero", referência para os preconceituosos. Herói, mestre, mito! Capitão Nascimento contemporâneo. Sua torcida (parte dela, é importante ressaltar) age de forma organizada, trabalhando arduamente para eliminar todos participantes adversários de Dourado, utilizando programas para acelerar votos e, mais recentemente, hackeando sites que são contra o lutador.

Preocupa mais, contudo, os berros de "morte aos viados" e as ameaças, inclusive de morte, àqueles que se opõem ao "mestre". Evangélicos radicais, homofóbicos e até neonazistas saíram de suas tocas em apoio a Dourado. Este último grupo é motivado, além de tudo, pelo lutador possuir uma cruz gamada, a suástica, tatuada. Ele alega ter tatuado pelo significado do símbolo na religião hindu, o que é questionável, considerando que ele também é ateu, e possui tatuada a frase "Sem Fé". De qualquer forma, Dourado ganhou, assim, uma legião de adoradores e inimigos.

É verdade que o próprio Dourado reprovaria as ações de muitos de seus seguidores, mas sua postura fomentou as atitudes da chamada "Máfia". Involuntariamente, tornou-se um símbolo, representante indireto dessas pessoas, e agora arca com os custos e benefícios.

Hoje, está no paredão com Dicésar, um drag-queen, seu maior adversário no programa. Se ganhar, o que é provável, chega muito próximo de ser o vencedor do prêmio. Não será, entretanto, o grande vencedor. Com a sua vitória, ganham todos os grupos citados, todo o preconceito, a violência e a discórdia. Sua glória coroa valores nefastos de séculos passados, e convence esses indivíduos sem caráter que o seguem de que estão certos, e que a população está ao seu lado.

Há o resto de seus fãs, que não pensa assim, e apenas o apoia porque achou que Dourado foi uma vítima, e é um cara sincero, verdadeiro, diferente do resto.

Isso me lembra o auge do escândalo do mensalão. Na ocasião, fui convidado para discutir e debater sobre uma passeata para demonstrar a revolta com o ocorrido. Percebi, no entanto, o oportunismo de alguns grupos com a situação. Grupos similares, partidários de políticos conservadores, skinheads, ultra-nacionalistas, etc, todos queriam se envolver para divulgar suas ideologias. O que era pra ser apartidário, logo se tornou um palco para os que esperavam a fraqueza do regime atual pra mostrar o que pensam, dizer aquilo que no dia-a-dia não lhes é permitido. Assim, retirei-me rapidamente de qualquer envolvimento com a passeata, que ocorreu da forma que esperava: pessoas de bem lado a lado com indivíduos violentos, preconceituosos e autoritários.

O mesmo ocorre agora. Quem apoiar Dourado, ficará ao lado desses grupos radicais que semeiam o ódio, mesmo que involuntariamente. O que começou como um jogo, agora mexe com os valores da nossa sociedade.

E então: de que lado você quer ficar?

4 comentários:

  1. O problema é que o BBB não coloca seres humanos, mas sim animais dentro da casa e isso vale para todos os participantes!

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  2. Lamentável o meu país votando a favor de alguém com essa personalidade... vergonha alheia generalizada eterna.
    Sem mais.

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  3. Uma sociedade atrasada alienada pelo poder de manipulação de uma emissora poderosa como a Globo, apoiando um tipo nada simpático como esse Marcelo Dourado, e é por isso que eu pouco acredito na mudança (positiva) de valores da nossa sociedade.

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  4. Oi Caio!

    Vim pelo link que deixou lá na PD. Se me permite, irei levar seu texto para outra comuna (Harém Saberes & Sabores). Pode deixar que darei todos os créditos: nome, link do blog.

    Eu só passei a ver o BBB10, já com menos de 10 participantes. Não vi todos esses lances do Dourado. Mas como falei lá na PD, acho que a maioria dos votos que ele recebeu na final, foram de homófobos. O país ainda é preconceituoso em relação a homossexualidade.

    Abraços,

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