quinta-feira, 2 de setembro de 2010

O surto golpista de Serra

Faltando um mês pras eleições, com Dilma em eterna ascensão e Serra em eterna queda, surge um novo factóide: a quebra de sigilo dos dados fiscais de Veronica Serra, filha do candidato tucano. Essa história facilmente lembra o que ocorreu com o caseiro Francenildo, o que derrubou Antonio Palocci do Ministério da Fazenda; e, para quem tem boa memória, o que Collor fez nas históricas eleições de 1989 ao atacar Lula também por meio de uma de suas filhas.

Relatos mais recentes indicam que a tal quebra de sigilo ocorreu em setembro de 2009, muito antes do início da campanha. Pode ter partido de algum aloprado do PT, é verdade. Mas nem Lula nem Dilma seriam tão irresponsáveis a este ponto, colocando em risco uma vitória que mesmo antes da campanha era provável. Isso não impediu, no entanto, a leviandade da campanha de Serra de acusar Dilma de ter ordenado o ato, e da candidata ser “uma ameaça à democracia”, palavras do presidente do PSDB, Sérgio Guerra. Retorna, assim, o foco negativo das campanhas eleitorais: tão presente no passado, e ausente neste ano. Até então.

Serra acusou Dilma de fazer o mesmo que Collor fez com Lula em 1989. Só que, mais uma vez para quem lembra, Collor, para ser eleito, aproveitou-se do temor das classes média e alta em relação a Lula. Inclusive, falando em Collor, o início da ofensiva tucana teve como foco os aliados da candidata petista, como Dirceu, Sarney, Collor, etc, que poderiam voltar ao governo com sua eleição. Argumento fraco, se alguém parar pra olhar em quem são os aliados de Serra. De qualquer forma, o que Serra está fazendo não é diferente. Se Lula era antes uma ameaça à economia, com a prevista fuga de empresários do país, agora Dilma é acusada de ser uma ameaça à democracia. Tentaram já insinuar isso por sua luta durante a ditadura, o que não colou. Mas buscava-se desde o início, como antes, conquistar o povo pelo medo.

Entretanto, o momento de 1989 é muito diferente de hoje. O Brasil saía do impopular governo de Sarney, com a inflação galopante e um desejo de mudanças reais, mas responsáveis. A tática do medo foi então eficaz. Ela foi empreendida novamente em 2002, com toda a especulação financeira no temor da eleição de Lula. Desta vez, o atual presidente se comportou como a mudança necessária e, mais do que tudo, responsável, para substituir o também impopular governo da época de FHC. Assim, o terrorismo midiático e antidemocrático só serviu para assustar os investidores, e não os eleitores, que enfim elegeram Lula.

Em 2005, no auge do escândalo do “mensalão”, a democracia brasileira entrou em risco. Mesmo na falta de provas que ligassem o presidente Lula aos esquemas de corrupção, a oposição do PSDB e PFL (agora DEM) sugeriu o impeachment do presidente, assim como o que ocorreu com Collor. Seria um enorme retrocesso, uma derrota para a democracia, mas era a arma que a oposição queria usar, sem ainda aceitar a derrota de 2002. Só não contavam com a popularidade do presidente. Com o mínimo de sensatez, percebeu-se que derrubar o presidente soaria como um golpe, abalando as instituições ainda frágeis da democracia brasileira. Portanto, seria melhor vencê-lo nas urnas.

Em 2006, havia de fato certa insatisfação com os escândalos do governo, mas também uma consciência de que isso sempre ocorreu. Os avanços socioeconômicos eram maiores do que isso, e o clima era de continuidade. Alheia a isso, a campanha de Alckmin atacou tanto Lula e o PT pelos casos de corrupção que a população solidarizou-se com o presidente, que introduziu mudanças reais na vida de tantos. Consequentemente, Alckmin conseguiu a incrível façanha de ter menos votos no 2º turno do que no 1º.

Hoje, em 2010, Serra não para de cair nas pesquisas, enquanto Dilma caminha a passos largos para a vitória no 1º turno. Ciente de que é sua última chance de ser presidente, sua campanha deu um ataque de desespero: entrou com um pedido no Tribunal Superior Eleitoral pela cassação da candidatura de Dilma. Alega que a petista quis investigar ilegalmente pessoas associadas a ele por medo de sua vitória.

É um verdadeiro desvario acreditar que alguém com mais de 20 pontos de vantagem nas pesquisas teria medo de que o outro candidato vencesse e, portanto, cometeria atos ilegais pra tentar prejudicar este candidato. É óbvio que a quebra de sigilo dos dados fiscais da filha de Serra só beneficia ele. Coloca-se assim como vítima, perseguido, e acusa Dilma de ser antidemocrática, quando ele busca desesperadamente a vitória a qualquer custo, mesmo que seja derrubando a candidatura do PT na justiça eleitoral, não nos votos, desrespeitando a vontade do povo. Muito “democrático” de sua parte.

É evidente que se Dilma estivesse mesmo envolvida no caso, ela deveria ser punida. Todavia, o pedido de cassação é feito sem provas, apenas para fazer barulho, evocar o medo e exaltar o golpismo. Um surto totalitário, que não aceita a derrota e não aprende com os erros. O pior é que não vai funcionar. A população brasileira esperava da campanha eleitoral deste ano a troca de ideias de como continuar a melhorar o país, não havia um anseio por ataques e escândalos, mas de ver o caminho certo ser mantido, o que a campanha de Dilma ilustra bem, com seus modernos videos e imagens de alta qualidade que consagram o otimismo, ou quem sabe até o ufanismo. A oposição do PSDB e DEM ainda teima em não conhecer o Brasil e deu mais um tiro no pé.

Os eleitores não vão se solidarizar com Serra, pelo contrário: ele será recriminado pelo tom para o qual quer levar a campanha. Assim, deve cair mais ainda nas pesquisas e, quem sabe, ajudar a campanha de Marina a apresentar-se como verdadeira alternativa. Serra pode estar indo de uma derrota legítima a um fracasso vergonhoso.

Um comentário:

  1. Caio, meus parabéns, eu jamais seria capaz de escrever um texto de nível tão alto!

    Concordo plenamente com tudo que foi abordado.

    Abraços!

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