sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Continuação ou Mudança: O Efeito Lula

Com Dilma disparada nas pesquisas, pouco se pode creditar a sua bem produzida campanha ou às trapalhadas de seu adversário. O grande “culpado” é, indubitavelmente, Lula. Muito já se questionou sobre o poder do presidente de transferir sua popularidade para votos em seus candidatos. Houve, de fato, esta transferência, em razão da confiança que as pessoas têm no presidente, mas ela tem limites: Lula tem aproximadamente 80% de aprovação, mas Dilma tem “apenas” pouco mais de 50% nas pesquisas. Por outro lado, Mercadante, seu candidato ao governo do estado de São Paulo, não engrenou sua candidatura, e está em volta dos 20%. Não se deve considerar esta diferença o mérito de um e o demérito de outro: a explicação se encontra na natureza humana.

A força motriz do ser humano é o seu instinto de sobrevivência. Tudo que fazemos é para garantir ou melhorar as chances de sobreviver. E uma vez conquistadas as condições para isso, busca-se uma forma de assegurar sua manutenção em prol de segurança e estabilidade. Por consequência, o ser humano é geralmente adverso a mudanças bruscas no seu estilo de vida por medo de como elas podem afetar as condições às quais está habituado e sob as quais vive de modo satisfatório.

Naturalmente, as pessoas são muito diferentes umas das outras, e algumas estão mais propensas a encarar mudanças frequentes do que outras. Além disso, o que é bom para um não é necessariamente bom para outro, cada indivíduo possui suas necessidades e anseios particulares. Porém, quando o ser humano encontra-se em uma situação que considera desconfortável ou prevê uma que seja claramente melhor, considera então a ideia de mudar. Em seu raciocínio, pesará os prós, que são as condições que proporcionam um maior nível de satisfação; e os contras, que incluem o dispêndio necessário para se adaptar às novas circunstâncias. Sendo os prós maiores do que os contras, inicia-se o processo de mudança.

Nas eleições, este processo fica muito claro. Dilma está na frente porque o povo quer que as coisas continuem como estão. Há um nível de satisfação muito elevado em relação ao governo Lula, e o presidente conseguiu convencer a população, ou boa parte dela, de que sua candidata significa a continuidade do que já foi feito. Por isso a dificuldade de Serra de ser uma alternativa plausível, pois a população não quer mudança, como quis em 2002. Muito menos pode ele assegurar um processo de continuidade, já que é o candidato da oposição e sua imagem sempre será remetida ao governo de FHC, amplamente rejeitado pela opinião pública. O anseio político do momento é melhor expresso pelo slogan da campanha de Dilma, uma frase paradoxal que captou perfeitamente o sentimento do povo brasileiro em 2002 com o de agora: “Para o Brasil seguir mudando”.

O mesmo ocorre no estado de São Paulo. O mais rico da Federação, concentrando aproximadamente 1/3 do PIB nacional, São Paulo está sob o governo do PSDB há 16 anos, rumo a mais 4. Comparado ao resto do país, a situação no estado é visivelmente melhor, e colhendo os frutos desta diferença, o partido tucano conseguiu manter-se no poder por todo este tempo. Alckmin, por já ser conhecido pelo seu tempo como governador, tem facilidade em conquistar votos, porque as pessoas ficam mais tranquilas em saber o que esperar. Apesar da popularidade de Lula, e até de Dilma estar na frente de Serra no estado onde era governador, Mercadante tem dificuldades para subir nas pesquisas, porque não há um anseio por mudança, há uma relutância da população em mudar para algo que não conhecem, principalmente se no presente as coisas funcionam, mesmo que não da forma ideal.

Sabe-se, contudo, que a relutância em mudar gera o comodismo, o que bloqueia a perspectiva de melhoras. Na política, isso é mais evidente e pernicioso. A permanência de um mesmo grupo no poder por muito tempo pode ser extremamente nocivo, pois gera raízes, que buscam consolidar-se cada vez mais fundo na terra, sugando cada vez mais os seus recursos; e galhos, que se espalham e se expandem por cada vez mais áreas e setores, principalmente onde não pertencem. Este seria o caso do PSDB em São Paulo. Por que é ruim manter os tucanos no estado por mais 4 anos será analisado melhor em breve aqui no blog.

Um comentário:

  1. Não entendo o pq, mas acho que o brasileiro não gosta de de grandes mudanças.

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