terça-feira, 27 de maio de 2014

A direita está ganhando, e a Europa está perdendo

Um espectro ronda a Europa – o espectro do fascismo...

Neste último domingo (25), a Europa foi às urnas para eleger seus deputados para o Parlamento Europeu. Em meio a medidas de austeridade para (supostamente) tirar os países da crise econômica enquanto se desmantela o Estado de bem-estar social; uma forte desilusão com a União Europeia e a moeda única; e uma crescente perda de confiança nos partidos tradicionais, não é surpreendente que os europeus perdessem interesse nas eleições ou buscassem alternativas ao status quo vigente. Só que quem saiu ganhando com isso foi a direita e, pior, até mesmo a extrema-direita.


No mapa acima (retirado do Huffington Post francês), é possível ver qual foi a orientação política do partido vencedor em cada país. Em amarelo, partidos de centro; em verde, partidos em defesa da causa ambiental; em vermelho, partidos da extrema-esquerda; em rosa, partidos de esquerda; em azul, partidos de direita; e em cinza, partidos anti-Europa de extrema-direita.

Dos 28 países da União Europeia, o partido vencedor era de esquerda em 6 países; de extrema-esquerda, em apenas um, a Grécia. Enquanto isso, o partido vencedor era de direita em 14 países, a metade do bloco, e de extrema-direita em mais 3 deles: o Reino Unido, a França e a Dinamarca.

Podemos destacar alguns destes casos. No Reino Unido, o vencedor foi o UKIP (United Kingdom Independence Party), do líder Nigel Farage, que defende a saída da União Europeia, o corte de gastos públicos, redução de impostos, especialmente para os mais ricos, entre outras políticas ultraconservadoras. Na França, venceu a Frente Nacional, com seu forte discurso xenofóbico e anti-imigração. O partido é mais conhecido por seu notório fundador, Jean-Marie Le Pen, que, entre outras pérolas, declarou recentemente que o vírus ebola poderia ajudar a resolver o problema de imigração na Europa. Por outro lado, temos a Grécia, país sofrendo as graves consequências das medidas de austeridade impostas pela chamada "troika" (União Europeia, Banco Central Europeu e Fundo Monetário Internacional), e onde o partido de esquerda radical Syriza saiu na frente com 32% dos votos, defendendo, entre outras coisas, a moratória ou cancelamento da dívida, além do fortalecimento do Estado de bem-estar social. Mesmo assim, o cenário ainda é preocupante quando um partido como o Aurora Dourada, de inclinações neonazistas, chega em terceiro nas mesmas eleições, com 9%.

Em um momento que a Europa brada justamente contra políticas liberais para o desmantelamento do Estado de bem-estar social, chega a ser contraditório a vitória da direita nas eleições para o Parlamento Europeu. Se o problema é a direita, como que a solução é mais direita? O problema é que a resposta é tão complicada quanto: é que a esquerda simplesmente não tem sido mais esquerda.

Cada partido de esquerda que chega ao poder na Europa tem feito muito pouco pra atender às expectativas da população que o elege. Desde o New Labour de Tony Blair, no Reino Unido, à caça aos ciganos de Hollande, na França, a esquerda tem sido tudo, menos esquerda. No contexto atual de crise no continente, menos ainda. Acatar as políticas de austeridade impostas pela “troika” de cabeça baixa não tem ajudado em nada, a não ser fazer com que os eleitores olhassem para o outro lado do espectro político. E o que outro lado tem oferecido? O que os eleitores querem ouvir: “O problema são os outros”. O problema é a Europa, o euro, os imigrantes, os vagabundos sustentados por benefícios do Estado, e assim vai. Trabalhando em cima do medo e do preconceito das pessoas, os partidos de direita vão avançando, ignorando ou aprofundando os problemas reais, sem que a esquerda consiga se apresentar como alternativa, muito menos ser a solução.

Se isso tudo parece distante, não se engane: isso está ocorrendo no Brasil também. Quanto mais o PT adere ao seu pacto conservador, tudo em prol da governabilidade, mais o partido perde legitimidade como representante da esquerda, enquanto a direita começa a ganhar território. Apesar de todos os avanços sociais nos últimos anos, não seria mais insensato acreditar que a direita volte a ganhar em 2014, deixando um pueril PT se perguntando: “Mas onde é que foi que erramos?” Mesmo o PSOL, que busca se apresentar como nova alternativa de esquerda, mostra que ainda está ligado à esquerda atrasada, arcaica, burocrática. Como explicar que dirigentes indicam um candidato para o governo do estado de São Paulo, enquanto a militância luta por outro? Um desencontro imperdoável.


Está na hora da esquerda começar a se reinventar e abandonar o fantasma da União Soviética. Se ela não radicalizar e inovar, a direita é que vai. Cada vez mais caminhamos a um cenário parecido com os anos 20 e 30 do século passado, quando o fascismo e o nacionalismo exacerbado pareciam a solução para todos os problemas. O sonho de uma Europa unida caminha a passos largos rumo ao pesadelo de um continente despedaçado e suspeito de si mesmo. E este é, certamente, um cenário que ninguém gostaria de repetir.

Um comentário:

  1. "UNIÃO EUROPÉIA" É UMA CAMBADA DE CRIMINOSOS, COMUNISTAS, TROTSQUISTAS, STALINISTAS, MULTICULTURALISTAS, GLOBALISTAS, MAÇONS, JUDEUS SIONISTAS, CIGANOS, PARASITAS, DEGENERADOS, PEDERASTAS E MERDEIROS!

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