quarta-feira, 7 de maio de 2014

Ainda que ela não fosse inocente...










Não demorou muito para que os “justiçamentos” fizessem uma vítima que chocasse o Brasil. Não é a 1ª vítima inocente, já houve outro caso, por exemplo, de um rapaz negro, com problemas mentais; porém, com esse, poucos se importaram. Desta vez, foi com Fabiane Maria de Jesus, uma mãe de família, no Guarujá, que morreu linchada por conta de um boato maldoso pela Internet de que ela sequestrava crianças e praticava magia negra. Isso enquanto ela voltava para casa do supermercado, carregando uma Bíblia com a foto das filhas.

O caso não exige mais detalhes pela repercussão que teve, mas fica evidente que, pouco a pouco, estamos voltando a práticas da Idade Média, quando no auge da caça às bruxas, bastava alguém ser apontado por praticar bruxaria para que a pessoa pudesse acabar na fogueira. Essa barbárie ceifou dezenas de milhares de vidas, mas, eventualmente, algum indivíduo deve ter parado e pensado: “Ei, espera aí. Isso aí não está certo. Muitas pessoas inocentes estão morrendo sem ter feito nada!” E essa impressão de que algo estava errado se espalhou, ganhou força, até que os países criaram sistemas judiciários na base de que todo mundo é inocente até que se prove o contrário, para tentar minimizar a punição de inocentes.

Aperta o fast forward e vamos para o Brasil, 2014. Uma jornalista em rede nacional, num canal de TV em funcionamento por concessão pública, emite uma declaração de apoio aos “justiceiros” que amarraram um suposto criminoso nu ao poste. Alguns de seus fãs, partidários do “bandido bom é bandido morto” ou “direitos humanos para humanos direitos”, tentam relativizar, dizendo que ela apenas declarou que era “compreensível”. Para esclarecer, repito a fala da jornalista:

“A atitude dos ‘vingadores’ é até compreensível.O Estado é omisso. A polícia, desmoralizada. A Justiça é falha. O que resta ao cidadão de bem, que, ainda por cima, foi desarmado? Se defender, claro! O contra-ataque aos bandidos é o que eu chamo de legítima defesa coletiva de uma sociedade sem Estado contra um estado de violência sem limite."

“O que resta aos cidadãos...”. “Legítima defesa coletiva”. Legítima defesa. Legítima. Já disse antes aqui que a tal jornalista defendia bandidos. Contudo, apesar da declaração infeliz, não creio que a jornalista seja mau intencionada. É que, de boas intenções, o inferno está cheio, como já diz o ditado. Mesmo sem querer atribuir a ela a culpa total pela morte de Fabiane, é importante compreender que o discurso inflamado de formadores de opinião é, às vezes, o bastante para que uma pessoa um pouco mais desequilibrada cometa algum ato extremo.

É o mesmo no caso de pastores fundamentalistas que pregam contra homossexuais e praticantes de religiões africanas. O resultado é filho gay sendo espancado pelos pais em casa para “tirar o capeta do corpo”, o incêndio criminoso de centros de umbanda, etc. Pra não dizer de atos ainda mais extremos, como os assassinatos, que ocorrem, e muito. Não é possível, portanto, isentar-se totalmente da culpa quando alguém fornece o discurso necessário para um maluco ir um pouco mais longe.

Uma amiga da vítima, em reportagem do portal G1, afirmou: “Minha maior revolta é que eles fizeram com que a imagem do meu bairro fosse destruída. Eles acabaram com a imagem das pessoas que moram aqui e que são honestas e de bem”. É um pouco triste que a maior revolta dela seja com a imagem do bairro, e não com a atrocidade em si. Mas quer dizer que essas pessoas do bairro eram “de bem”, e agora viraram “do mal”? Tenho certeza que todos “justiceiros” que atacaram a moça eram considerados “de bem” por suas famílias e amigos até então. Só que a realidade é apenas uma: o cidadão de bem é um mito. Ele não existe, é uma fábula feita para você acreditar que você é melhor do que os outros, só porque você não cometeu nenhum crime. Na verdade, deve ter cometido sim: quem nunca comprou produtos piratas, fez downloads ilegais pela internet, pagou um cafézinho pro policial esquecer aquela multa, declarou algo falso ou deixou de declarar para o imposto de renda? Pois é, poucos são os que se salvam. Todo mundo é cidadão de bem até cometer um crime. Mas há crimes e crimes, né? E cada um encontra um motivo para justificar o seu. “Tem que se considerar as circunstâncias.” Só que ninguém considera as circunstâncias do outro.

Ah, e se ela tivesse cometido mesmo o crime? Creio que isso não importa. Sem querer discutir se linchamento público até a morte é uma punição legítima para qualquer crime, como defendem até mesmo alguns “bons cristãos” (lembrem-se que Jesus foi crucificado e apedrejado), o fato é que toda e qualquer pessoa, antes de ser punida, deve ser julgada de forma isenta e séria, presumindo sempre a sua inocência, mesmo quando tudo a princípio indica o contrário. A justiça não é perfeita, ela comete seus erros. Mas é o melhor que temos. Se avançamos como seres humanos para construir sociedades com base na lei e no direito, não vamos retroceder aos tempos de nossa maior barbárie. Acredite, como a história muito recente demonstra, isso sempre é possível.

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