sexta-feira, 27 de junho de 2014

Aqueles cegos pelo ódio...


Segunda-feira, dia 23 de junho, jogo do Brasil. Nas ruas de São Paulo, alguns manifestantes do “Se Não Tiver Direitos, Não Vai Ter Copa” protestavam contra os gastos do evento, enquanto o resto da população se preparava para assistir ao jogo, seja em casa, nos bares, ou até mesmo no estádio Mané Garrincha, em Brasília. Apesar do protesto pacífico, dois manifestantes que nem estavam no meio da multidão, Rafael Marques Lusvarghi, de 29 anos, e Fábio Hideki Harano, de 26, foram presos como suspeitos de integrar os “black blocs”, acusados dos crimes de associação criminosa, incitação da violência, resistência à prisão, desacato à autoridade e porte de artefato explosivo. Recentemente, a Justiça negou os pedidos de liberdade provisória e decretou a prisão preventiva dos dois, que, até o momento, continuam presos.  

O Fábio é meu amigo. Ou quase. A gente tinha as nossas diferenças, o que, às vezes, resultava numa discussão mais acalorada. Na última, após perder a paciência, até o retirei da lista de amigos do Facebook, mas isso não o impediu de enviar mensagens, de tempos em tempos, para discutir algumas questões políticas, às quais, é verdade, eu nem sempre respondia. Já o conheço há uns 8 anos, quando praticávamos kendô juntos. Ele era meio chato às vezes, patrulhava as pessoas com um discurso mais politicamente correto, o que incomodava e afastava as pessoas que não concordavam. Eu tinha um pouco de paciência – por concordar com ele em aspectos gerais e saber que ele era legal, com boas intenções – mas nem sempre.

Ontem, dia 26 de junho, houve um protesto de 200 a 300 pessoas no vão do MASP, em São Paulo, pedindo a libertação dos dois jovens presos. Desde o começo, havia mais policiais do que manifestantes, todos estrategicamente colocados de forma a cercar quem estivesse lá. Com algumas faixas e cartazes dizendo “Ditadura Não”, os presentes batucavam tambores e entoavam diferentes cantos como “Libertem os presos, lutar é um direito!”, ou “O terrorista é o governador, Fábio Hideki é um trabalhador!”.


O Hideki é trabalhador. E estudante. Primeiro, ele entrou na Poli, da USP, pra fazer engenharia. Viu que aquilo não era a cara dele, e decidiu fazer Ciências Sociais. Só que ele não era filhinho de papai - como alguns gostam de chamar pessoas do movimento estudantil - e precisava trabalhar, então passou num concurso para técnico de laboratório dentro da universidade. Me falaram que agora fazia outro curso, Jornalismo talvez, não sei. Não duvido, com a inteligência e dedicação dele, sei que ele podia entrar em qualquer curso. E, pra “piorar”, ainda dedicou o pouco tempo que lhe sobrava ora como voluntário, dando aulas em cursinhos populares pré-vestibular, ora como ativista político, em questões que nem o afetavam diretamente. Ele podia ser tudo, menos um vagabundo.


Durante o protesto de ontem, a PM e a tropa de choque cercavam os manifestantes nos 4 lados, intimidando todos ali. Em um momento, as pessoas saíram de baixo do vão do MASP e foram para a rua, interditando uma das vias da Av. Paulista. Imediatamente, a polícia fechou os dois lados da rua onde os manifestantes estavam, bloquearam a saída para a outra via, formaram outra fila da tropa de choque fechando o acesso à rua que desce ao lado da MASP, e ainda colocaram a cavalaria em formação a uns 100m dali, prontos para o ataque. Os manifestantes gritavam “Fora PM” e “Não à repressão”, enquanto os policiais ficavam parados, de prontidão. O ambiente era tenso, e parecia que bastava um leve deslize para o comando ordenar o ataque da polícia sobre os manifestantes pacíficos.




O Harano era pacífico. Ele era excêntrico, tudo bem. Numa época, inventou de andar com bengala, porque achava o acessório estiloso. Isso talvez explique porque raios ele andava com um capacete pra se proteger da polícia no protesto de segunda. Mas ele era pacífico. Um cara de boa, nunca participou de atos violentos. Adorava crianças, até se vestia como heróis de desenho animado para diverti-las. Um vídeo circulado na internet demonstra que não encontraram nada de perigoso no meio dos seus pertences quando o abordaram no metrô. Só que o Harano também é azarado. Quando houve invasão na reitoria da USP, ele não participou, mas conhecia quem tinha participado. Num belo dia, após perder o último ônibus para voltar pra casa, achou que era melhor passar a noite com seus amigos no prédio da reitoria. Foi quando a polícia invadiu e prendeu os estudantes que estavam presentes. Na hora errada, no lugar errado, para variar.


Mais para o final do ato de ontem, chegaram pelo menos três camburões da tropa de choque, e se posicionaram atrás dos policiais com a porta dos fundos aberta. Parecia que era questão de momento para que aquilo virasse uma zona de guerra, e todo mundo fosse parar na delegacia. Nas ruas em volta, as pessoas observavam, tiravam fotos, comentavam entre si que era um exagero. Alguns gringos, presentes na cidade para a Copa do Mundo, olhavam tudo surpresos num misto de medo com curiosidade. Alguns paravam para tirar foto e filmar a polícia, com suas escopetas enormes, enquanto outros hesitavam em continuar atravessando a Paulista, com medo do que pudesse acontecer. Pra terminar, um homem, sem saber de nada sobre nada, discutiu com os manifestantes dizendo que a prisão dos jovens tinha sido justa. Felizmente, foi o momento mais quente da noite. Sem ter para onde ir com o ato, as pessoas foram se dispersando e o protesto chegou ao fim.


No domingo, um dia antes de ser preso, o Japonês me mandou uma mensagem no Facebook, me indicando um texto por causa de uma discussão recente que havíamos tido com outro amigo. Com o título “O que querem aqueles cegos pelo ódio?”, cuja autoria desconheço, destaco um trecho:

Para provar que suas crenças são as únicas e verdadeiras não medem esforços. Em seu maniqueísmo, permitem-se fazer qualquer grosseria, qualquer baixaria e qualquer ofensa, para seus inimigos não existe respeito, educação ou civilidade – somente o ódio. Ódio que exclusivamente cria mais ódio e intolerância, nada mais. Não podem comparar, já que isso desconstruiria sua visão de mundo. Não conseguem dialogar, porquê isso exigiria que o ódio seja posto de lado. Não contribuem com ideias e soluções para os nossos problemas, pois todas as suas respostas estão no passado e o novo significaria a mudança que tanto temem. Seu medo e seu ódio são alimentados e instrumentalizados por uma elite e grandes empresas midiáticas que somente pensam em si mesmas.”
  
Pois é, Jaspion. Apesar das nossas discordâncias, entre a gente, está tudo bem. Pena que o Estado não pensa da mesma forma. Você acabou sendo a vítima deste mesmo ódio que denunciou. Mas tudo bem, eles estão errados. Eles passarão, e você, passarinho. Apenas volte logo.


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