segunda-feira, 16 de junho de 2014

O que significa ser da “elite branca”


                                          (Foto: AP Photo/Shuji Kajiyama)

Muita gente ficou incomodada com o termo “elite branca” – utilizado por diversos jornalistas e inclusive por mim no artigo anterior – para descrever os torcedores presentes na abertura da Copa do Mundo em São Paulo. Uns disseram que era preconceito; outros, até mesmo, que era racismo. O fato é que algumas pessoas, até quem não estava no estádio, sentiram-se pessoalmente atingidas e ofendidas pelo termo, que foi inicialmente cunhado pelo ex-governador de São Paulo, Cláudio Lembo, ao descrever uma minoria da sociedade paulista que reclamava da violência.

Antes de tudo, é importante lembrar: o que é ser de elite? De acordo com o dicionário Houaiss: e.li.te s.f. 1 o melhor ou mais valorizado num grupo social 2 minoria que domina um grupo. De acordo com o IBGE, em notícia do UOL, um negro no Brasil ganha em média 57,4% do que ganha um branco. Em termos mais claros, um negro brasileiro ganha, em média, R$ 1.374,79, enquanto um trabalhador de cor branca ganha R$ 2.396,74. Portanto, seguindo a definição do Houaiss, e com base apenas na diferença salarial (podemos comprovar isso olhando também para diversos outros dados, como escolaridade, representação política, proporção em cargos gerenciais, etc), ser branco no Brasil é, sim, ser de elite.

Isso tudo numa sociedade que, de acordo com o Censo Demográfico de 2010, se declara 47,7% branca e 50,7% negra e parda. Mas aí alguns podem argumentar: “Ah, mas há negros ricos e brancos pobres. Até estes brancos, que são pobres, são de elite?” Sim, eles são. Porque o branco pobre dificilmente vai sofrer com batida policial. O branco vai ter mais facilidade para conseguir mulheres; afinal, é mais fácil até de ser apresentado à família (argumento que eu mesmo já ouvi). O branco tem mais chances de ser contratado em vez do negro com o mesmo currículo, por ser mais “apresentável”. O branco não vai ser convidado para pegar o elevador de serviço. E assim vai, entre muitas outras formas, que um negro poderia descrever melhor, de como um indivíduo de cor branca é privilegiado no Brasil. É claro que isso não significa que um negro rico não esteja melhor ou mais feliz em sua vida do que um branco pobre. Ele apenas não vai ter algumas facilidades que o branco, por ora, teve ou tem.

Além disso, há diferentes tipos de elites, dada a diversidade de grupos sociais no seio da sociedade. Podemos, então, ter uma elite racial, sexual, de orientação sexual, de beleza, financeira, intelectual, entre outras. É verdade também que, geralmente, uma acaba levando à outra: quem é branco tem mais chance de ficar rico, o que permite gastar mais com tratamentos de beleza e, também, com educação, e assim vai. Mas não necessariamente.

É um erro, portanto, pensar que a elite branca e, evidentemente, financeira (dado o custo dos ingressos) que vaiou e xingou a presidente no estádio era, também, uma elite intelectual. Sim, podem ter até seus diplomas em universidades de nível, seus MBAs estampados na parede, etc, mas isso não tem nada a ver com civilidade, conhecimento geral, e muito menos com politização. O que se viu no estádio foi uma manifestação de classe: uma elite, privilegiada, que atacou uma figura política que não as representa. Afinal, quem ali já dependeu de educação básica e saúde públicas? Isso pra não dizer de um Bolsa-Família. A mídia estrangeira, ao ver um estádio repleto de pessoas que não representam nem de longe a totalidade brasileira e ler que a popularidade da presidente nem é tão baixa assim, não entendeu de forma diferente. Ou seja, antes de mostrarem a insatisfação geral do brasileiro, os manifestantes apenas se envergonharam ao deixarem claro ao resto do mundo a mesquinhez de sua classe, para não dizer da falta de respeito.


Uma leitora, ao comentar meu texto, perguntou se eu, também, por estar no estádio, não faria parte desta elite branca. Respondo: é evidente que sim. Talvez nem tanto financeira, como estar no cheque especial e pedir dinheiro emprestado para comprar o ingresso evidenciam.  Mas, pelo menos, tenho consciência dos privilégios de ser branco dos olhos claros. Isso, por si só, não define que a minha vida foi mais ou menos fácil que a dos outros. Afinal, a vida não é fácil pra ninguém. Mas significa que, de todas as dificuldades que tive na vida, ser branco, certamente, não estava entre elas.

6 comentários:

  1. Caio, mostre seu texto para a Isabela Raposeiras, ela está precisando de esclarecimento. ;)

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    1. Obrigado Livia, eu vi aquele post, e postei lá o link. :)

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  2. Este comentário foi removido pelo autor.

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  3. a atitude daqueles brasileiros reflete a opinião de milhares de brasileiros que não fazem parte dessa tal elite tbm,eu conheço várias pessoas que são de classe média baixa e são contra esse governo.Seu artigo é claramente petista

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