segunda-feira, 9 de junho de 2014

“Se não têm pão, que comam brioches”



Diz a lenda que a rainha Maria Antonieta, pouco antes da Revolução Francesa, declarou a frase acima em deboche (ou, quem sabe, por inocência) aos pobres que se revoltavam por não haver comida. Ninguém sabe se ela realmente disse a frase, mas o fato é que o rumor correu a França, o que acendeu mais ainda a turba já enfurecida contra os desmandos da realeza. Aí o resto é história, como dizem.

Mas a memória deste caso inusitado da história não é por acaso. Neste momento, os metroviários de São Paulo entram no seu 5º dia de greve, mesmo depois da justiça tê-la declarado “ilegal e abusiva”, e ameaçando multas diárias de R$ 500 mil. E o que muitas pessoas andam dizendo? Que os metroviários agem sem pensar na população e, se estão mesmo insatisfeitos, que procurem outro emprego, já que eles escolheram estar lá.

É triste que as pessoas pensem que tudo é tão simples assim, que basta trocar de emprego e procurar outro com um salário melhor quando você está infeliz. De fato, isso é o que prega o ideário liberal de forma utópica. Mas a realidade, como sabemos, é bem diferente: você não sai escolhendo o seu emprego livremente, pesando as diferentes opções e ofertas de salário. Só uma elite privilegiada tem esse benefício. Para a maioria, você pega o que aparece pela frente simplesmente porque precisa trabalhar. Precisa de um salário, precisa pagar as contas. E as contas nunca esperam por você.

Quem prestou concurso para trabalhar no metrô também não sonhava necessariamente em ser metroviário, ou nem mesmo com o salário: queria um emprego público, acessível às suas qualificações, que lhe desse estabilidade e segurança, o que o setor privado não providencia. Mas isso não significa que, uma vez lá dentro, o trabalhador vai ficar satisfeito com o pouco que tem. O piso salarial dos metroviários é de R$ 1.323,55. Menos que duas vezes o salário mínimo, e muito menor que o salário mínimo sugerido pelo Dieese como suficiente para atender as necessidades básicas do trabalhador, que seria de R$ 3.079,31. É compreensível, portanto, que os metroviários queiram um reajuste bem acima da inflação. Ainda mais depois de saber que pelo menos quase 1 bilhão de reais, que deveriam ter sido destinados ao metrô, foram desviados pelo cartel do metrô, envolvendo membros importantes do governo estadual e do PSDB.

Alguns vão dizer: “Ah, mas veja a linha 4-Amarela, que beleza, ela não tem nada disso, porque está sob os cuidados da iniciativa privada. É só automatizar tudo também!”. Primeiro de tudo, metroviários não são apenas aqueles que conduzem os trens, incluem todo o pessoal que trabalha nas estações de metrô: seguranças, pessoal da manutenção, da bilheteria, etc. Mas a verdade é que a linha 4-Amarela só é bonita esteticamente; afinal, ela é mais nova. Tirando isso, padece de diversos problemas. Que desastre de engenharia é aquele túnel que conecta a estação Paulista com a Consolação, da linha 2-Verde? E as esteiras que, nos horários que mais precisa, estão desligadas? Quem utiliza a linha frequentemente também sabe: quantas vezes o metrô parou de funcionar, sem avisos, sem orientações ao usuário? É a famosa eficiência do setor privado em ação (só que não). Os funcionários da concessionária não pertencem ao sindicato dos metroviários; portanto, se não entraram em greve, isso não significa que seus direitos estão garantidos. Pelo contrário, trabalhadores desmobilizados têm muito mais chance de terem seus direitos desrespeitados. E isso tudo sem falar no princípio geral que transporte público deve servir aos interesses públicos, e não aos interesses privados, que só visam o lucro.

“Mas a Justiça declarou que a greve é abusiva e ilegal!” A mesma Justiça afirmou que os trabalhadores em greve deveriam trabalhar em 70% de sua capacidade nos horários normais, e em 100% nos horários de pico. Que raios de greve patética é essa em que você é forçado a trabalhar mantendo 100% do funcionamento de algo? Lembremos que o direito a greve é garantido pela Constituição. Não só isso, mas a Justiça não é perfeita, muito menos tem efeito moralizante. Ela é falha, e muitas vezes serve a interesses mais poderosos, o que justifica o seu questionamento.

E pra quem acha que os metroviários não estão nem aí pra população, vale a pena lembrar: eles sugeriram trabalhar de graça, liberando a catraca durante a greve, para não prejudicar a população. Só que, pra isso, seria necessária a autorização do governador; pelo contrário, os trabalhadores poderiam ser demitidos por justa causa. A resposta do governador, no entanto, foi “não”. E pra não ficar nisso, ele ainda mandou a Polícia Militar bater nos grevistas que impedissem a abertura de estações, forçando seus supervisores a trabalharem em seus lugares.
 
Assim, enquanto o governador se ausenta do problema, o governo do PSDB em São Paulo faz, mais uma vez, o que sabe melhor: colocar o povo contra si mesmo. O exemplo mais irônico disso tudo foi a declaração do capitão da PM, que comandou a ação para expulsar à força os grevistas da estação, de que, apesar de tudo, ele era a favor da greve. E nem adianta dizer que os metroviários são oportunistas por causa da Copa do Mundo: eles avisaram sobre a possibilidade de greve há semanas, decidindo começá-la uma semana antes do evento. Se quisessem mesmo, poderiam iniciá-la já durante a realização do mesmo, o que causaria um efeito muito mais desastroso.

É verdade que tudo isso causa um transtorno para a população, mas é preciso atacar o alvo acerto, o governador Geraldo Alckmin, que não quer nem dialogar nem buscar uma solução. Não adianta sugerir que os metroviários busquem outro emprego: isso é tão tolo quanto a suposta frase da Maria Antonieta. Os metroviários têm todo o direito de lutar por condições melhores, assim como toda classe de trabalhadores, pois não se trata de buscar privilégios, e sim de querer um pouco mais de dignidade. Afinal, não basta entregar os pães; é preciso repartir os brioches também.

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