terça-feira, 1 de julho de 2014

O jogo mais tenso da Copa: crônicas de um Brasil x Chile


O Chile sempre foi freguês do Brasil, todo mundo sabe. Mas havia algo de diferente desta vez. Antes de ir ao estádio, os chilenos estavam afoitos, confiantes. Você perguntava a eles qual o placar que eles esperavam, e sempre a mesma resposta: “2x1 Chile”. E os brasileiros zombavam, dizendo que ia ser goleada. Mas essa confiança excessiva logo iria se mostrar infundada.

Na chegada ao Mineirão, ficava claro que, apesar de toda a confiança dos chilenos, os brasileiros seriam a grande maioria no estádio. O mar de amarelinhos se deslocava lentamente para os portões, até que fui abordado por uma entrevistadora do Datafolha. Diversas perguntas foram feitas sobre temas como renda, cor, como o ingresso foi comprado, opinião sobre a organização para o jogo, sobre as vaias à presidente Dilma, sobre o governo Dilma, etc. O resultado da pesquisa pode ser visto aqui, comprovando, como relatado em post anterior do blog, que os brasileiros que foram aos jogos fazem mesmo parte de uma elite branca, e que não foi a maioria que vaiou a presidente.

Já no entorno do estádio, muita batucada e música dos brasileiros. Uma crítica constante à torcida brasileira é a ausência de cantos e gritos que saiam do “eu sou brasileiro / com muito orgulho / com muito amor” de sempre. Assim, a Brahma distribuiu panfletos com alguns versos de uma música nova para a torcida cantar. Fora do estádio, até que a torcida adotou a canção e aprovou, cantando bastante antes de começar o jogo, mas bastou o apito inicial para todo mundo esquecer e cantar o mesmo de sempre.

Em comparação ao jogo da abertura, havia algumas diferenças. Desta vez, parecia ser uma torcida menos família, e um pouco mais torcida de jogo de futebol. Ainda assim, havia muitos que, acostumados a torcer apenas pela TV, estavam indo a um jogo de futebol pela 1ª vez, tendo a sorte de conseguir um ingresso pelo site da FIFA, ou por conhecer alguém que arranjou os ingressos de alguma forma. De qualquer modo, todos se uniam ao zombar dos chilenos que iam chegando em pequenos grupos, fazendo uma nova versão do grito chileno com “Chi-chi-chi, Le-le-le, veio aqui pra se f...!”

Ao achar meu lugar no estádio, pouco à frente e à direita do miolo da torcida chilena, dois ingleses com camisas do Brasil estavam ao meu lado. Eles comentaram a emoção de assistir ao Brasil jogar, que seria um jogo difícil, e mostraram um papel com a letra do hino brasileiro. “É pra gente cantar junto”, um deles disse. “Moro em São Paulo há 3 anos, falo português, mas esse hino é difícil né?” Sorri e concordei.

Só que o clima de zombaria, infelizmente, se estendeu até mesmo ao grande momento dos hinos. Quando os chilenos quiseram cantar a capella o restante de seu hino nacional, alguns brasileiros vaiaram. Os chilenos responderam à altura, vaiando o hino brasileiro, tirando a magia de um momento que deveria ser bonito para todos. Parece que a lição que fica é que há uma tendência do brasileiro de seguir a lógica de “se não gosto de algo, eu não preciso aceitar”. Um individualismo pueril, antidemocrático, que se exalta em diversos momentos, mas fica mais feio ainda em eventos esportivos desta magnitude, quando o entendimento e a harmonia entre os povos deveria ser a regra. O respeito aos adversários é algo que precisa ser trabalhado aqui, para não ficar preso a um nacionalismo barato, altamente manipulável e nefasto. Mas, bola rolando, bola pra frente.

O Brasil começa dominando o jogo e a torcida segue junto. Os chilenos apoiam a sua seleção, mas os brasileiros abafam seus gritos. A união do time com a torcida funciona: 1x0 Brasil. Os chilenos ficam preocupados, parecem temer que tudo vai dar errado, enquanto os brasileiros se assanham e começam a cantar: “Um, dois, três: o Chile é freguês!”. Talvez aí o time relaxou. Erro crasso de Hulk ao receber um lateral e Alexis Sánchez aproveita pra empatar. Explosão chilena, que, na comemoração, arremessa alguns copos em direção à torcida brasileira. Os ânimos se acirram, os brasileiros gritam com os chilenos: “Jogar copo, não!”. Parecia que uma briga estava prestes a começar, mas todos se acalmaram; todos, menos os chilenos, que não pararam mais de cantar, enquanto os brasileiros se calaram com a decepção.

No segundo tempo, o Chile começa melhor, e a torcida brasileira continua preocupada.  Alguns se levantam, tentam motivar a torcida, que grita “Brasil!”, ao que os chilenos respondem alternadamente com “Chupador!”. Mas a maioria dos brasileiros ficava sentada, não sabia o que fazer, não estava acostumada a apoiar a seleção sob pressão, sem o jogo nas mãos. E, assim, sob o olhar preocupado de muitos e com o Chile cantando e vibrando, o jogo se arrastou para a prorrogação.

O Brasil começou melhor a prorrogação, pois o Chile estava acabado, exausto. Mas o ataque não dava certo, a bola não chegava. Eu já me resignava com a possibilidade do Brasil perder. Nas oitavas? Tudo bem, o Chile tinha uma grande equipe. Poxa, mas dava pra ser mais. Tinha ainda os pênaltis. O Brasil tem um histórico bom, o Júlio César é bom pegador de pênaltis, e os chilenos estão mortos, sem energia... mas também vão encarar o empate como uma vitória, o emocional pode contar a favor deles. Tudo bem, há esperança nos pênaltis. Mas antes, aos 14 do 2º tempo da prorrogação, Pinilla manda uma bola no travessão. Troco olhares com outro torcedor, e sem falar nada, nos dissemos: “Cara, o que foi isso?”. Surreal.

Pênaltis então. A torcida grita “É Júlio César! É Júlio César!”. David Luiz cobra e converte, para alívio geral. Chega Pinilla para cobrar e a torcida vaia, treme as mãos. Parece que funciona, pois ele erra. Comemoração de todos, e uma mulher de seus 40 e poucos anos à minha esquerda, antes discreta e calada, agora estende a mão para um “high-five”. Vamos que vamos. O gesto se repete com a outra defesa de Júlio Cesar, mas Willian e Hulk erram os seus também. Neymar cumpre a sua parte, agora só faltava Jara. Na trave e pra fora. Explosão de todos. A mulher ao meu lado agora me abraça e pulamos junto de alegria. É Copa do Mundo. Abraçamos mais outro cara e pulamos felizes. A torcida brasileira dá tchauzinho pros chilenos, que choram copiosamente. Era a chance deles, mas faz parte. Antes eles do que nós.


Na saída do estádio, mais zombaria dos brasileiros para os chilenos. A maioria aceita de cabeça baixa, mas um não gosta e vai pedir satisfação. Brasileiros de um lado, chilenos de outro tentam acalmar a situação, dizer que é brincadeira, mas vai dizer isso pra quem acabou de perder? Se fosse o Brasil, teria briga, com certeza. Ainda bem que não teve briga. Ainda bem que o Brasil ganhou.

No caminho da volta, uma cena curiosa. O ônibus que transportava os torcedores presentes no jogo passava ao lado do hotel onde a seleção estava hospedada. Vários curiosos já se reuniam lá para saudar os vitoriosos; porém, ao ver o ônibus com os torcedores do estádio, alguns balançaram bandeiras e aplaudiram em comemoração. Era como se dissessem: “Vocês sofreram lá juntos também, valeu pela força!”. A união do torcedor do estádio e da TV, pelo menos por um momento.

De volta ao albergue, alguns chilenos vão chegando aos poucos, com cara de que “não deu”, e nos sentamos juntos para ver os lances do jogo na TV. Ao rever o último pênalti, alguns chilenos reclamam, xingam; um deles chora. Quase, mas não foi desta vez. Eles começam a arrumar as malas, se despedem dos brasileiros. Um deles, antes de partir, aperta minha mão e diz: “Tenga una buena vida”. E é isso aí. A vida segue.

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