segunda-feira, 7 de julho de 2014

Por que torcer para a seleção brasileira?


(Buda Mendes/Getty Images)

Essa é uma pergunta que pode ter respostas óbvias para ambos os lados. Por um lado, torcer para a seleção brasileira se torna um ato automático pelo simples fato de ser brasileiro, nada mais. Por outro, por que torcer – em nome de um patriotismo barato que surge apenas de 4 em 4 anos – para 23 jogadores de futebol que ganham mais em um mês do que a enorme maioria dos brasileiros ganha em um ano (pra não dizer em toda a vida), e que ainda são comandados por uma empresa de caráter no mínimo duvidoso que os gerencia, como é a Confederação Brasileira de Futebol, a CBF?

Respondendo aos motivos contrários citados acima, temo discordar. Torcer para a seleção do seu país não precisa ser por nacionalismo, barato ou não. É natural torcer pelos seus semelhantes, com quem você se identifica de alguma forma. E por mais que alguém tente negar, somos todos brasileiros, temos uma identificação linguística e cultural que nos aproxima, o que vai muito além de meramente possuir o mesmo passaporte. Mas reconheço que alguns não se reconhecem como brasileiros (mesmo o sendo, em todos os aspectos), ou sentem vergonha de sua origem. Faz parte.

Quanto à CBF, também tenho minhas reservas em relação a sua administração e seus dirigentes. Entretanto, eles não são a seleção, da mesma forma que os governantes da nação não são o país. Quem faz o Brasil é o povo brasileiro, não seus governantes; quem faz a seleção são os jogadores, não seus dirigentes.

Para mim, no entanto, a resposta a essa pergunta ainda é um pouco mais complexa. Primeiro, é verdade que adoro esportes, em particular o futebol. É fácil, portanto, me envolver numa competição grandiosa como é a Copa do Mundo. Depois, obviamente, sou brasileiro e me identifico como tal. Logo, torço pelos jogadores que representam o meu país. Mas por mais lógicas que sejam, nenhuma destas razões chega a ser a principal. Há questões ainda mais profundas que condicionam a minha torcida e que exigem melhor explicação.

Todos sabemos que o futebol brasileiro é o mais conhecido no mundo. O único pentacampeão mundial, o Brasil é a potência a ser batida, o que é motivo de orgulho para a enorme maioria dos brasileiros. Porém, não foi sempre assim. Para isso ocorrer, foi necessária uma longa caminhada, que começou em 1958. Na verdade, corrijo: começa em 1950, na primeira Copa realizada no Brasil.

Em 1950, o Brasil teve a oportunidade de realizar a Copa do Mundo de futebol, esporte que já se estabelecia como paixão nacional. Havia um sonho de que o país pudesse vencer a Copa pela 1ª vez, ainda mais jogando em casa. Todavia, ficamos no quase: o Uruguai venceu a final no Maracanã, e os brasileiros ficaram arrasados. Não éramos os melhores do mundo, o sonho havia terminado. E a culpa era nossa.

Para o Brasil, a derrota de 1950, mais conhecida como o “Maracanazo”, só podia ter ocorrido porque o brasileiro era inferior às outras nações. Nação formada de mestiços, nada podia dar certo neste país e, portanto, jamais seríamos grandes ou os melhores em qualquer coisa. Este sentimento de inferioridade, aflorado no pós-1950, acabou ganhando nome, o “complexo de vira-lata”, cunhado pelo escritor Nelson Rodrigues. Assim, então, o brasileiro se via: um eterno vira-lata, sem chances de competir com os outros de pedigree.

Aí veio 1958, veio Pelé e, enfim, o Brasil ganhou a Copa, mesmo em terras longínquas. Sim, podíamos ser os melhores do mundo. E ganhamos de novo em 1962, mesmo sem Pelé, lesionado logo no começo. Mas bastou perder em 1966 para o “complexo de vira-lata” voltar com tudo. Tamanha a baixa auto-estima do brasileiro, o pessimismo tomou conta: estávamos ultrapassados, o Brasil foi o melhor apenas por um breve momento, um acidente na história, e agora já tinha sido superado de novo pelo “futebol-força” dos europeus. Mas veio 1970, e o Brasil provou que ainda era bom, que ainda era o melhor. E o resto é história: 1994, 2002... 2014?

O “complexo de vira-lata”, como bem reconheceu Nelson Rodrigues, ultrapassava as fronteiras do futebol, e podia ser encontrado em diferentes esferas da nossa cultura. Contudo, com o reconhecimento global de que o Brasil era a superpotência do esporte, dá para entender por que o futebol se tornou uma das poucas áreas na qual o brasileiro se sente orgulhoso e confiante. Antes somente um esporte, um mero produto de entretenimento, o futebol virou um símbolo nacional, o cartão de visitas de cada brasileiro em qualquer parte do mundo. Duvida? Basta viajar e se apresentar como brasileiro. Geralmente, é o suficiente para conquistar alguns sorrisos; às vezes, pode ser o suficiente para salvar sua vida, como no caso do engenheiro brasileiro, durante a Guerra do Golfo (se não me engano), que foi capturado por insurgentes, mas ao encontrarem consigo uma camisa da seleção e perguntarem se era brasileiro, decidiram soltá-lo.  Assim, a auto-estima do brasileiro se tornou fortemente ligada ao sucesso da seleção, que se tornaria fonte de grandes alegrias, ou de grandes decepções.

Mas há algo ainda mais incrível no poder da seleção brasileira de futebol, pois ela faz o que nenhuma outra força política, religiosa ou cultural consegue: unir o país. Sejam homens ou mulheres, brancos ou negros, heteros ou gays, pobres ou ricos, pessoas de direita ou de esquerda, de todas as regiões do país, de todas as origens, de todas as crenças; todos se juntam perto de uma TV para assistir à seleção, apesar de todas as fraturas, desigualdades e divisões do país. Se a seleção joga, todos se unem pela mesma causa, mesmo que por apenas 90 minutos. Dá para imaginar outra força tão unificadora?

Além disso, poucos grupos conseguem refletir tão bem a diversidade étnica do brasileiro. Na seleção, as três principais raças que compõem o Brasil estão representadas: por exemplo, os brancos, com Oscar e Henrique; os negros, com Fernandinho e Willian; e até mesmo os indígenas, visíveis nos traços marcantes de Paulinho e Thiago Silva. A diversidade brasileira se reflete no grupo de forma tão democrática que parece forçado, institucionalizado. Mas não, é apenas um retrato fiel do país.

Não se enganem, no entanto, de achar que o futebol pode ser subordinar à política; em outras palavras, de achar que, se o Brasil ganhar, o governo atual é o maior beneficiado. Tolos os que pensam que o brasileiro é tão manipulável. Sim, a atual presidente vai se beneficiar da Copa ter sido um sucesso, mas a seleção ganhar o hexa está além disso. Por mais que isso mexa com a auto-estima do brasileiro, ele sabe separar as coisas. Pelo contrário, o PSDB teria ganho de novo em 2002, depois do Brasil ganhar o campeonato, não?

Mas ainda há outro motivo importante (pelo menos para mim) para torcer pela seleção brasileira que é relevante citar: os próprios jogadores. Muito se criticou em relação ao choro excessivo da equipe em diferentes momentos do campeonato. Ruim? Ruim seria se não tivessem chorado. Se choraram de emoção, é porque compreendem que a alegria ou tristeza de 200 milhões de pessoas estão sob a responsabilidade deles. O peso de inúmeros torcedores, que são exigentes, que querem nada menos que o melhor deles, pois o orgulho de uma nação inteira está em jogo, e que está assistindo a tudo bem de perto. A vontade de corresponder a essas expectativas acaba gerando esse nervosismo, o que é natural; afinal, todos eles ainda são demasiadamente humanos.

Isso sem falar nas diferentes histórias individuais. Como Thiago Silva, que superou a tuberculose e o risco de encerrar a carreira de forma prematura para dar a volta por cima e ser hoje o capitão da seleção. Ou Júlio César, o goleiro que falhou na última Copa, mas teve o caráter de ser o primeiro a dar entrevistas e admitir o erro, antes de chorar no colo da mãe na volta ao Brasil. Mas ele se reergueu, recuperou a confiança do treinador, e conseguiu a redenção nos pênaltis contra o Chile, nas oitavas-de-final. E o David Luiz? Tem jogador mais carismático do que ele? Ele canta o hino a plenos pulmões, se entrega jogando tudo na defesa, e ainda faz gols. Sem contar o seu jeito descontraído e alegre, o que o torna um favorito das crianças - motivo, inclusive, que o fez recusar participar de um comercial de cervejas. Não são dignos de serem campeões?

Ah, e ainda tem o Neymar. Alguém ainda tem dúvidas de que o cara é craque? Com todas as reservas que alguém possa fazer em relação à sua imagem de estrela tão atrelada ao marketing, o jogador aceitou com bravura a responsabilidade de ser o camisa 10 da seleção, mesmo com apenas 22 anos. Era só um garoto com o sonho de jogar a Copa, ainda mais no seu país: sonho que, infelizmente, foi interrompido por uma entrada maldosa do colombiano Zuñiga. A propósito, muito se falou da atenção excessiva dada a sua lesão em comparação à tragédia em Belo Horizonte, com a queda do viaduto que matou duas pessoas. A comparação é injusta. Mortes em uma tragédia são sempre lamentadas, mas não é possível chorar por toda pessoa que morre. Lamentamos, mas não padecemos quando é algo distante de nós, até mesmo em prol da nossa sanidade. Por outro lado, Neymar é tudo, menos distante para cada brasileiro. É impossível passar o dia sem vê-lo pelo menos alguma vez na televisão. É um garoto que vimos crescer, se tornar um craque, ganhar o mundo. Aí, em um instante, vimos o seu sonho terminar. A questão aqui não é o peso de cada tragédia, mas o quanto ela nos é próxima. E o Neymar já era íntimo de cada um de nós.

Assim, o time ficou sem seu maior craque. E agora, em sua honra, precisa jogar mais ainda. Contra a Alemanha, que é difícil. Mas não impossível. Enquanto preparo minhas coisas para pegar o ônibus para Belo Horizonte, me lembro do outro Brasil x Alemanha. Em 2002, após o Brasil ganhar a Copa, a TV mostrou imagens de pessoas comemorando a vitória ao redor do mundo. Um destes lugares era o pobre Haiti. A repórter então perguntou a um menino por que ele comemorava tanto a conquista brasileira. Ele disse: “O Brasil é pobre, como nós, e eles vencerem os ricos nos dá esperança de que nós também podemos vencê-los”. Dá para contrariar isso? 

Como Felipão disse, a catástrofe é uma oportunidade. Amanhã, que nos tornemos o 12º jogador que traga a alegria ou o choro a muito mais do que 200 milhões de habitantes, e que os sonhos em jogo se tornem realidade. Eu acredito. Que venha a Alemanha!

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