sexta-feira, 15 de agosto de 2014

Eduardo Campos morreu... e agora?



No dia 13 de agosto, enquanto sobrevoava a cidade de Santos, o jato que levava o candidato à presidência Eduardo Campos (PSB) caiu numa área residencial, matando ele e mais 6 pessoas. Além de uma tragédia inesperada, a morte do 3º colocado nas pesquisas coloca dúvidas sobre como sucederá a corrida presidencial. E agora, o que vai acontecer?

Não demorou muito para que inúmeras pessoas elaborassem todo tipo de conjecturas e teorias de conspiração. Eduardo Campos tem 13 letras, morreu no dia 13, o DDD de Santos é 13, o número do PT é 13, e mais um monte de asneiras numerológicas. Crendices à parte, a verdade é que ninguém saiu beneficiado de uma tragédia dessas: nem Dilma, nem Aécio, nem o PSB. Apenas uma pessoa pode sair ganhando disso tudo, pelo menos em termos políticos: Marina Silva.

No caso de falecimento de um candidato, a legislação eleitoral permite que a coligação de partidos tenha 10 dias para a indicação de um substituto. Deste modo, é até lógico que a escolha natural do novo candidato seja Marina, a vice da chapa de Eduardo Campos. Ele tinha poucas chances de vencer as eleições em 2014 – e devia saber disso. Tudo serviria de ensaio para 2018, quando o PT dificilmente terá um sucessor de peso. Marina, no entanto, já está pronta para 2014. Com um cacife eleitoral considerável, herdado das eleições de 2010, ela chegaria com força na corrida presidencial, mais do que Campos, ainda mais com o impulso a ser conquistado pela comoção em torno da tragédia.

Mas se a escolha é natural, é preciso ressaltar que ela não é automática. O jornalista Josias de Souza identificou bem esta questão no seu blog ao relatar o desconforto compreensível de dirigentes do PSB com Marina. Afinal, a ex-candidata pelo PV entrou no PSB como uma legenda de aluguel – é questão de tempo para que ela saia, uma vez que seu partido Rede Sustentabilidade seja lançado, deixando o PSB de mãos abanando. Por outro lado, lançar outro nome pode ser pior ainda. Sem a presença de Eduardo Campos, que controlava e unia o partido, o PSB corre o risco de se desfacelar em vários pedaços. Poderia até apresentar um candidato mais afinado com a direção do partido, é verdade; contudo, eliminaria qualquer chance de se apresentar como 3ª vida para a disputa PT-PSDB. E isso sem falar na opção de desistir de um candidato próprio, o que apenas beneficiaria Dilma.

A saída mais sensata – mesmo que a menos pior – seria então a escolha por Marina. Só que, para manter a coligação unida ao seu redor, talvez seja preciso mostrar habilidade política, coisa que ela já demonstrou não ter, enquanto Campos tinha de sobra. Assim, Marina tem poucos dias para definir todo o seu futuro político: se ressurge da tragédia como uma protagonista, ou se reafirma a sua condição de coadjuvante inepta e tola.

Caso Marina seja confirmada como candidata, o jogo muda. Ela certamente vai roubar votos de Dilma e Aécio, além de incorporar muitos – não todos – os seguidores de Campos e alguns indecisos carentes de uma 3ª opção viável. É provável, portanto, que já figure com um percentual de votos muito acima que seu antecessor nas próximas pesquisas de opinião. E o 2º turno, que antes era uma dúvida, torna-se uma quase certeza.

O mais prejudicado por isso, inicialmente, seria Aécio. Ele corre o sério risco de perder o 2º lugar para Marina, deixando o PSDB fora do 2º turno das eleições presidenciais pela 1ª vez em 20 anos. Seria um golpe bem duro – tanto para as pretensões do candidato quanto para o partido. Mesmo se mantiver o 2º lugar, certamente não terá o apoio no 2º turno de Marina, que, no mínimo, deve se manter neutra, assim como nas eleições passadas, o que apenas favoreceria Dilma.

A candidata do PT também encara um cenário desfavorável. Podia antes vencer no 1º turno, o que, com a entrada de Marina, torna-se muito improvável. Se for para o 2º turno contra Aécio, ainda mantém grandes chances de vencer. Entretanto, se Marina Silva passar para o 2º turno, é certo que ela herdará a grande maioria dos eleitores do tucano, ansiosos por uma mudança de poder. Logo, as chances de Dilma perder se tornariam grandes, e Marina poderia então se tornar a segunda mulher – e primeira evangélica e negra – presidente do Brasil.


Meses atrás, eu dizia que, para Dilma perder as eleições, uma grande tragédia teria que ocorrer – fosse um desastre na organização da Copa do Mundo, novos protestos em grande escala, outro escândalo de corrupção, etc. Pelo contrário, sua eleição estava praticamente garantida. A morte de um político pode ser o evento necessário para alterar os rumos da história. Exemplos não faltam, como a morte de Tancredo que tornou Sarney presidente. Poderia também a morte de Eduardo Campos ser este episódio que mude todos os prognósticos? Talvez. Por ora, aguardemos os próximos capítulos.

5 comentários:

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  2. Caio, queria sua ajuda com o seguinte: eu tenho clareza do porquê me posiciono com a esquerda e das razões sociais pelas quais faço isso. Mas frequentemente ouço as pessoas dizerem que, falando em política ecônomica (e não em política social), o atual governo "acabou" com a econômia e a indústria. Não sei de onde vem isso, pois ninguém nunca discute dados ou o que deveria ser feito e etc. Como eu não entendo de política econômica e as pessoas se limitam a reverberar o que acreditam, sem se preocupar em embasar, fico sempre perdida. Você conseguiria me explicar por que o pessoal da direta critica a política econômica atual? E qual a diferença básica entre as propostas dos candidatos à presidência para a economia? Help!

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    1. Renata, não tem uma resposta simples e concisa pra sua pergunta. Os liberais não gostam do governo Dilma por causa de uma palavra: intervencionismo. A Dilma interviu bastante na economia, subsidiou alguns setores e apostou num modelo de crescimento (baseado no consumo) que alguns consideram já saturados. Em poucas palavras, a turma do Aécio defende menos intervenção. E da Marina, aparentemente, também, se for levar em conta a proximidade dela com economistas de viés liberal.

      Eu vou tentar em breve postar algo a respeito disso, pra delinear melhor essas questões de política econômica.

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  3. Caio, eu imaginei que não tivesse mesmo, mas agredeço e se você postar vai ser um serviço de utilidade pública! Eu fiz a mesma pergunta pra ums outra pessoa que eu imaginava que poderia me ajudar, vou copiar aqui a resposta dele:

    As pessoas da direita criticam a política econômica atual por vários fatores: tem os manifestos e os latentes. Os manifestos: dizem que o país está crescendo pouco, o que é parcialmente verdade. Dizem que o que impede o crescimento do país é a alta carga tributária, o que corresponde a apenas uma parte pequena da verdade. Dizem que a inflação e os gastos do governo estão descontrolados, o que é mentira. Os motivos latentes, que ninguém quer dizer porque pega mal, é que a simples diminuição de carga tributária e corte dos gastos do governo usualmente costumam significar corte de investimentos na área social e arrocho salarial para os trabalhadores assalariados, o que pode gerar aumento da desigualdade social. A política econômica do atual governo (e não sou petista, estou apenas interpretando os números) ocasionou um ganho real do salário dos mais pobres e diminuição do desemprego. Você pode ver os dados na página que montei: o salário mínimo cresceu muito nos últimos 12 anos, o desemprego caiu muito, a dívida pública líquida caiu consideravelmente, as reservas internacionais cresceram, o PIB cresceu, a desigualdade caiu. TODOS os indicadores econômicos são positivos, mas indicam uma desaceleração no governo Dilma (porque o governo Lula foi, em números, melhor em todos os indicadores econômicos do que os governos anteriores e do que o governo Dilma). Um exemplo, o Aécio acha que a indústria não cresce porque o salário mínimo está alto, que se a indústria pagar um salário menor terá mais capital pra investir e gerar mais crescimento. Mas crescimento pra quem? Então já avisou que não quer mais que o salário mínimo aumente. Ele acha que o governo gasta demais, então vai ter que cortar investimentos de algum lugar (um exemplo, deixaram de investir na política de recursos hídricos e estamos sem água, o FHC deixou de investir em energia e ficamos sem luz)... Se trata de uma política econômica que considera sempre o Estado um peso e que prefere transferir para o setor privado tarefas de interesse público, como saúde, educação, habitação. Agora, quando alguém te falar em caos econômico, indústria quebrada, crescimento horrível, inflação galopante, desemprego, peça que a pessoa te apresente dados históricos. Ela não vai apresentar porque não há nada que comprove essa tese catastrófica. Se olhar historicamente, os dados econômicos são bem melhores do que os de 12 anos atrás. Agora se fizer um recorte dos últimos 12 meses, dá pra ver certa estagnação, embora sem arrocho salarial e sem aumento do desemprego. Acho que a política econômica precisa ser corrigida, mas não pelas pessoas que fizeram política econômica entre 98-2002, um dos piores períodos econômicos da história do país. Confira na pág. https://www.facebook.com/.../Pol%C3.../483551698448484

    Política - Somente Para Adultos
    Página com dados objetivos e séries históricas sobre diversos assuntos relacionados à política, sem piadas, terror ou sensacionalismo.

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  4. Esqueci de mencionar que a resposta dele e a sua (mesmo que preliminar) já me ajudaram muito.

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