quinta-feira, 7 de agosto de 2014

Um problema chamado Hideki



Um laudo do Gate e do Instituto de Criminalística descobriu o que todo mundo já sabia: os artefatos supostamente encontrados com Fábio Hideki Harano e Rafael Lusvarghi, que seriam o motivo para as suas prisões, não eram incendiários, e muito menos explosivos. Sendo assim, a justiça tem até o fim da semana para decidir se revoga a prisão preventiva dos dois com base nessa nova informação. E agora?

Agora tudo fica bem complicado. Tanto o governador Geraldo Alckmin quanto o Secretário de Segurança Pública Fernando Grella se esquivaram do resultado do laudo afirmando que os dois ainda são réus por associação criminosa e incitação ao crime. E essas acusações se baseiam no quê? Bem, o Ministério Público afirmou que manteve a prisão preventiva dos dois com base no testemunho dos policiais. Pausa para reflexão: apenas de policiais? Pois é, mantiveram a prisão por confiança na “experiência” e na “fé pública” dos policiais que os prenderam. Sim, meus caros, vocês não leram errado: apesar de ninguém confiar na polícia brasileira depois de tantos escândalos de execuções, provas de crimes plantadas, etc, a justiça confia, e ainda cegamente! Dá para acreditar? E pra piorar o caso, o último pedido de liberdade dos dois foi negado pelo juiz da 10ª Vara Criminal, Marcelo Matias Pereira, com a argumentação de que os dois faziam parte de uma “esquerda caviar”. Sim, é sério. Este é o estado atual da nossa polícia e do nosso sistema judiciário.

Mas tratemos do caso. Vou me ater ao de Hideki, que já relatei aqui ser meu amigo, e por desconhecer mais detalhes do caso do Rafael. Sabe-se bem que o Hideki já estava marcado pela polícia. Ativista presente em diversas manifestações, a polícia identificou nele um suposto líder de grupos que faziam esses protestos, em especial os mais violentos, protagonizados pelos black-blocs. Só que o Hideki não tem nada a ver com os black-blocs, e sequer apoia a prática, apenas atuando como ativista independente. A pergunta que fica é: será que a polícia sabia disso, e quis usá-lo apenas como bode expiatório, ou o setor de inteligência da polícia é tão ruim (o que não seria surpreendente, já que o filósofo russo Mikhail Bakunin foi citado no Rio como possível suspeito) que eles realmente acreditam que Fábio pode ser o líder de facção criminosa que eles tanto procuram?

Qualquer uma das opções é preocupante. Ou a polícia é desonesta, ou ela é ineficiente. Pra não dizer que é as duas coisas. O problema agora é o que fazer. Se soltarem Hideki, ele terá muitas bombas a apresentar, mas não as do tipo que explodem. O que ele disser na mídia pode pegar muito mal: para a polícia, para a justiça e, especialmente, para o governador que busca a reeleição. Hideki não é qualquer um – é um cara inteligente, bem articulado, e compreende muito bem a situação. Vai incomodar e muito. O processo contra ele pelas outras acusações vai continuar, é verdade, mas se enfim for inocentado de tudo, poderá até processar o Estado.

Só que há também a opção de não soltarem. Aí a pressão vai continuar crescendo, vai continuar a atrair a atenção de grupos nacionais e internacionais de direitos humanos por manter injustamente uma prisão política. É um risco que pode ser melhor (para eles) do que deixá-lo falar. Há muitos interesses em jogo, como o pai de Hideki já afirmou numa recente entrevista, e por isso, toda cautela é necessária. Mas o que me preocupa, particularmente, é o risco que o próprio Hideki corre. Há não tanto tempo atrás, prenderam um jornalista e simularam o seu suicídio dentro da prisão, talvez com medo do estrago do que ele poderia causar se voltasse às ruas e contasse tudo o que aconteceu. Seu nome era Vladimir Herzog. Execuções dentro de presídios no Brasil ainda são corriqueiras, e não tenho dúvidas de que, no mínimo, já passou pela cabeça de alguma autoridade que a melhor opção seria dar um “sumiço” no Fábio. Acidentes acontecem, não é mesmo?

Seja como for, é importante estar de olhos bem abertos. Este caso é um exemplo bem claro do conflito entre o Brasil da ditadura e o Brasil democrático. Ainda há um passado autoritário que não conseguimos nos desvencilhar totalmente, e que mostra estar bem vivo toda vez que se busca superá-lo. Assim, o desfecho dessa história será crucial para saber quem saiu ganhando desde Junho de 2013: o Brasil de seu passado nefasto ou o Brasil de um futuro – quem sabe –  próspero.

Nota: Minutos após a publicação do texto no blog, o mesmo juiz mandou soltar os manifestantes, como relatado em notícia da Folha. Que seja o princípio de justiça a ser feita e cumprida.

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