quinta-feira, 11 de setembro de 2014

O que deu errado para a campanha de Aécio?



Conforme as pesquisas eleitorais demonstram, Aécio Neves encontra-se cada vez mais distante das duas primeiras colocadas, Dilma Rousseff e Marina Silva, e se consolida num distante 3º lugar. Logo, pela 1ª vez em 20 anos, o PSDB corre o sério risco de ficar de fora do 2º turno das eleições presidenciais – um golpe pesado no partido que já governou o país por 8 anos e se manteve como principal opositor do governo do PT. Mas o que deu errado para o PSDB e seu candidato, Aécio Neves?

Primeiro de tudo, é importante repetir o mantra que todo mundo já sabe: desde que perdeu as eleições em 2002, o PSDB não soube ser oposição. Pois é, depois de saírem do governo federal, os tucanos nunca mais encontraram um discurso próprio: primeiro, o partido negou seu passado das privatizações; depois, se fez de conservador, o que não era; e agora, volta a reafirmar o passado que antes negou. E as contradições não param por aí: antes, o PSDB foi contra o Bolsa-Família; agora, promete reforçá-lo. Antes, atacava Lula sem piedade; agora, reconhece seu bom governo e declara-se como seu melhor sucessor. E assim vai. A coerência nunca mais foi seu forte, entrando numa grave crise de identidade que consolidou a imagem do PSDB de partido dos ricos, e não da ética, como tentou formar, ainda mais depois de escândalos como o cartel do metrô em São Paulo, o aeroporto em Minas Gerais, etc.

Aí entra um problema chamado Aécio Neves. Já que nem Alckmin, nem Serra (duas vezes) emplacaram, o PSDB tentou lançar o neto de Tancredo Neves e duas vezes governador de Minas Gerais como candidato à presidência. Quando, em junho de 2013, centenas de milhares de brasileiros foram às ruas, as pessoas protestaram por melhores serviços públicos e contra os partidos tradicionais e a corrupção na política brasileira. Só que, em vez de dar ouvido a essas vozes, Aécio preferiu ouvir aqueles que assistiram aos protestos lá de cima – no alto do ar-condicionado de seus confortáveis escritórios – que pediam menos impostos, menos encargos, menos Estado. O problema é que a ideia de melhores serviços públicos soa incompatível com menos Estado, não?

Aécio também cometeu um erro que foi retomar um discurso de defesa do governo FHC. Não negar o passado até pode parecer honrado, alguns podem argumentar. Contudo, a estratégia é errônea, pois só agrada seus eleitores. A maioria da sociedade brasileira lembra o governo FHC de forma negativa, então louvar um governo que é repudiado pela maioria dificilmente vai cativar a mesma, reforçando a imagem de partido de elite.

Depois, é claro, entra o fator Marina. A candidata do PSB defende uma política econômica similar àquela do tucano, mas não foca nisso. Pelo contrário, ela enfatiza a questão da “nova política” – isso, sim, o que as vozes das ruas pediam. Sem falar, é claro, na promessa de manter o que está bom e melhorar os serviços públicos. Não a pergunte como, mas pelo menos ela promete isso. Já o Aécio até tenta... mas quem acredita?

Por fim, há uma última questão que é mais da tradição da política brasileira: o declínio histórico dos partidos conservadores no Brasil. Ao longo da nossa história, os grandes partidos conservadores sempre passaram por um estranho e forte declínio para serem, enfim, substituídos por outros em seu lugar. O caso mais recente foi o do DEM, ex-PFL. Lembram dele? Do Antônio Carlos Magalhães, todo poderoso no governo FHC, com uma das maiores bancadas no Congresso Nacional? Pois é, hoje não é nem sombra do que já foi. Esses partidos crescem, chegam ao seu auge, aí vão se desintegrando eleição a eleição, até se reduzirem a pó.

Será que este também é o caminho do PSDB? É muito cedo para concluir. Aécio vai tentar se utilizar ao máximo que puder do novo escândalo da Petrobrás – que envolveria políticos dos partidos de Dilma e Marina – para subir nas pesquisas, mas as chances de reverter sua situação são baixas. Além disso, o PSDB, que realmente se tornou o principal partido conservador no Brasil, mostra-se enfraquecido. Neste momento, os tucanos lideram somente em 4 estados na disputa para governador – a metade do que conseguiu eleger em 2010. Se a história se repetir, talvez estejamos mesmo testemunhando o princípio de seu derradeiro declínio.

Mas se o futuro parece sombrio, pelo menos nem tudo está perdido. Em São Paulo, o estado mais rico da nação, o PSDB parece assegurar seu domínio, rumo a 24 anos no poder. Para os paulistas, infelizmente, a temporada de caça a tucanos deve ser adiada mais uma vez.

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