terça-feira, 21 de outubro de 2014

A política econômica de Aécio e Dilma



O principal tópico que diferencia as candidaturas de Dilma e Aécio é a política econômica. Aliás, este tem sido um dos principais argumentos (quando existem) pelos eleitores de Aécio para justificar o seu voto.  Portanto, é importante esclarecer um pouco mais sobre as diferenças entre o que Dilma fez em sua política econômica e como cada candidato lidaria com a situação econômica atual para fazer o país voltar a crescer. E embora economia não seja exatamente a minha especialidade, creio que posso contribuir para desmistificar algumas questões em debate.

Primeiramente, é necessário contextualizar a situação econômica do Brasil em relação ao momento pelo qual passa o mundo neste momento. Nos tempos do governo Lula, é verdade que o país foi amplamente beneficiado pela alta de commodities (minérios, produtos agrícolas, etc, dos quais o Brasil é um grande exportador), alavancada pela forte demanda da China, o que facilitou a grande expansão econômica. Com a grave crise financeira internacional de 2008 e a queda nos preços dos commodities, o Brasil teve que mudar sua estratégia e, diferentemente de outros países ao redor do mundo que recorreram ao arrocho salarial e ao corte de benefícios sociais, apostou no mercado interno para impulsionar o crescimento, aumentando o crédito e cortando impostos em alguns setores-chave da economia, como construção civil, automóveis, eletrodomésticos, etc. A tática funcionou, e enquanto muitos países ricos sofriam com o alto desemprego, privatização de instituições públicas e cortes em salários e benefícios, o Brasil manteve o pleno emprego, com taxas históricas mínimas de desemprego, e a economia em movimento.

Com a eleição de Dilma, foi dado um passo além. Uma demanda antiga do empresariado era a redução da taxa de juros para impulsionar o investimento privado, e até o momento isso não tinha sido feito por temor de que a inflação voltasse. Seu governo então ousou e reduziu a taxa Selic ao nível mais baixo de sua história, facilitando o crédito para a população que quisesse fazer algum financiamento e para o empresariado que quisesse fazer novos investimentos. A população, de fato, aproveitou a facilidade de crédito para a compra de imóveis, automóveis, entre outros bens; o empresariado, no entanto, não respondeu aos incentivos como era esperado. Talvez por falta de confiança no governo, temor em relação à economia internacional, ou falta de ousadia mesmo, a verdade é que a indústria não seguiu os passos que o governo antecipava. Ao mesmo tempo, o alto consumo gerou inflação, que levou ao endividamento, e com os temores de um retorno aos tempos de inflação alta, o governo Dilma recuou na sua estratégia e aumentou os juros de volta. Esgotava-se a estratégia de focar no mercado interno para lidar com a crise, e desta vez era necessário buscar outras alternativas para fazer o Brasil voltar a crescer.

É verdade que o governo Dilma teve que lidar com outros problemas também. Primeiro, a crise internacional continua – apesar de alguns esboços de recuperação –, o que, junto a um dólar relativamente baixo, insiste em prejudicar a indústria e a balança comercial do país. Depois, houve alguns “acidentes de percurso” da gestão Dilma-Mantega. A maior reclamação do mercado em relação a Dilma é o seu intervencionismo na economia, pois isso traria instabilidade e desconfiança. Por exemplo, a presidente renegociou os contratos de distribuição de energia, baixando as tarifas praticadas para a indústria e o consumidor. Entretanto, a falta de chuvas no último ano prejudicou o setor, que recorreu às usinas termoelétricas para a geração de energia, que são mais caras. Assim, com as tarifas mais baixas, o setor está tendo prejuízo. Além disso, a presidente é acusada de congelar os preços para não fazer a inflação subir ainda mais, como da gasolina, que estava defasado devido aos preços internacionais do petróleo, o que vem causando prejuízo à Petrobrás e outras indústrias de petróleo e gás. Por isso, esses setores têm demonstrado insatisfação há algum tempo com Dilma, e pedindo a cabeça do ministro Mantega.

Agora, o Brasil está com a economia no freio de mão e uma inflação no limite da meta. O que fazer? Aécio e Dilma apresentam as duas alternativas mais frequentes num momento de crise: a neoliberal e a keynesiana.

Aécio Neves já sinalizou que Armínio Fraga seria seu Ministro da Fazenda. Quem é Armínio? Para quem não lembra, ele foi o presidente do Banco Central no segundo governo de FHC, quando promoveu juros altos que aumentaram e muito o desemprego da época. Economista influente, com dupla cidadania americana e de viés liberal: não é de se espantar, portanto, que Aécio e Armínio sejam os favoritos do mercado. De fato, Aécio defende bastante o que ele fez em Minas Gerais, classificando como “choque de gestão”. O que ele prega, na verdade, é seguir o receituário neoliberal para se lidar com uma crise: corte de gastos do governo, elevação da taxa de juros (diminuindo a oferta monetária, o que causa lá na frente a queda da inflação), aumento de privatizações, cortes em gastos sociais, etc. Ele defende a forte redução na inflação, e na macroeconomia, há um trade-off entre a inflação e o desemprego. Ou seja, de acordo com a curva de Phillips, ao se buscar diminuir a inflação, reduzindo a circulação de dinheiro na economia e dificultando o crédito, o que temos é o aumento do desemprego (menos pessoas consumindo, diminui-se a produção, o que leva a demissões). Isso sem falar no arrocho de salários, e mais outra mazelas, tudo para deixar o mercado “se reestruturar” para fazer a economia “voltar a crescer”. Isso é o que seu discurso quer dizer, embora não admita em público. Afinal, declarar que pretende congelar programas sociais e que haverá aumento de desemprego seria suicídio político.


Por outro lado, Dilma já tem adotado outro antídoto para fazer a economia voltar a ter um crescimento maior. O seu governo parece seguir uma linha mais keynesiana, que defende o aumento dos investimentos públicos para movimentar a economia. Como o modelo de crescimento baseado no consumo do mercado doméstico parece ter se estagnado, Dilma decidiu tirar do papel as inúmeras obras de infraestrutura que o país tanto precisava para diminuir o “custo Brasil” e aumentar a competitividade da indústria brasileira. Só que o governo não tinha os recursos e a capacidade para fazer os investimentos sozinho sem ter que aumentar os impostos ou tirar dinheiro de outras áreas; portanto, a solução foi ceder às parcerias público-privadas para que as coisas andassem. E assim começaram inúmeras obras em portos, aeroportos, rodovias, ferrovias, etc, que devem alterar bastante a infraestrutura deficiente do país, ao mesmo tempo em que gera emprego e faz a roda da economia girar.

Essas obras já estão em andamento, e os próximos presidentes vão se beneficiar disso daqui a uns 5, 10 anos. No entanto, quem vencer pode adotar políticas diferentes em relação a isso: Dilma continuará o foco nessa estratégia, enquanto Aécio deverá adotar as medidas mencionadas de combate à inflação e de reforço do poder do mercado. Dificilmente ele fará uma interrupção nas obras, mas a continuidade deste tipo de política pode entrar em risco. A verdade é que este é um movimento cíclico: um país consegue melhorias sociais, eventualmente entra em recessão, e surge o receituário neoliberal como "salvador da Pátria", desmantelando os avanços anteriores como se a culpa dos gastos com programas sociais. O que é melhor para o país? Cabe ao eleitor decidir, mas talvez seja melhor tentar algo diferente deste ciclo, como o que Dilma tem buscado. E caso haja dúvidas, melhor perguntar ao povo de Espanha, Portugal, Grécia, entre outros países europeus sofrendo com a tal da “austeridade” neoliberal. Eles, certamente, não parecem muito felizes com isso.

Um comentário: