terça-feira, 28 de outubro de 2014

“Foi só pelos 20 centavos?”



As redes sociais estão perplexas com a eleição de Dilma. Não bastou os patrões doutrinarem suas empregadas e funcionários ou os médicos alertarem seus pacientes em postos públicos de saúde que Aécio seria o melhor para o país. Dilma ganhou mesmo assim, mesmo que por uma margem estreita de votos. Tem quem relate não conhecer ninguém que vota nela, ache que foi só por causa do Bolsa Família no Nordeste, acredite que o povo não lê sobre a corrupção do PT ou lamente que o gigante que tinha acordado em junho de 2013 tenha voltado a dormir. Era só mesmo pelos 20 centavos, dizem. Será mesmo? Eu temo ter que dizer outra coisa: saia da sua bolha!

Para entender por que Dilma foi reeleita, apesar de toda a torcida contra, é preciso esclarecer cada uma dessas crenças. Primeiro, não se engane: as jornadas de junho do ano passado não eram contra a Dilma e muito menos a favor do PSDB ou do Aécio. Se você assistiu a tudo pela janela ou pela televisão, até dá para perdoar um pouco que não tenha compreendido o que ocorreu naquele período. Mas se você esteve lá, o caso é grave, pois você não tinha a mínima ideia do que estava acontecendo à sua volta. Não, não era só pelos 20 centavos: começou assim, nos protestos do Movimento Passe Livre contra o aumento da tarifa. Entretanto, com a repressão violenta da Polícia Militar a manifestantes pacíficos, parte da população se indignou e saiu às ruas em protesto pelos abusos vistos na TV. Dos 20 centavos, partiu para a PEC 37, a reforma política, e o anseio por melhores serviços públicos de transporte, saúde e educação. Não era contra algum político específico, seja o prefeito, o governador ou a presidente, apesar de um ou outro grito de “for a Fulano”. Era contra a forma de se fazer política no país, a falta de representatividade e a sensação de não ter sua voz ouvida (sobre isso e o resultado das eleições no 1º turno, ver aqui no blog). E, acreditem ou não, se há algum governante que entendeu essa situação, foi a própria Dilma ao colocar em pauta a questão da reforma política.

“Mas olha a corrupção do PT!”. Olha, se o motivo da sua aversão ao PT é por ele ser corrupto, e com isso você vota no PSDB, o mal-informado aqui é você. Não quero dizer que o PT é um exemplo de ética. Infelizmente, não é. Mas o PSDB muito menos. Há inúmeros escândalos envolvendo os tucanos, muitos deles mais graves e envolvendo montantes muito maiores que o mensalão petista, como, por exemplo, o cartel do metrô em São Paulo. O problema é que a mídia não noticia os casos do PSDB com a mesma intensidade que faz com o PT. O Manchetômetro, iniciativa de um grupo de estudantes e professores da UERJ para analisar as manchetes dos principais veículos de imprensa, comprova que o PT recebe mais manchetes negativas. Você pode dizer que isso ocorre simplesmente porque o PT tem mais coisas negativas para se noticiar, mas isso seria inocência, não? Basta andar até qualquer banca de jornais para ver como a mídia tem um lado. Talvez seja hora de parar e refletir sobre o quanto você está sendo manipulado por ela.

“O PT só ganhou por causa do Nordeste, que vive de Bolsa Família!” Se isso fosse verdade, o Aécio ganharia, pois Dilma ainda precisava ter uma votação expressiva no resto do país. E isso, de fato, ocorreu: Dilma venceu em Minas Gerais (terra onde o tucano governou), Rio de Janeiro, e ainda obteve votações expressivas em outras partes mais ricas do país, como o Rio Grande do Sul, onde Aécio ganhou com apenas 53% dos votos válidos. Agora, achar que o Nordeste vota em Dilma apenas por causa do Bolsa Família não passa de preconceito. A realidade é que o governo do PT investiu numa região que era esquecida pelos antigos presidentes do Brasil, e eles sentiram a diferença. Não foram apenas programas sociais, mas investimentos em infraestrutura, a atração de indústrias, empregos, que revolucionaram a economia da região (ver aqui). Enquanto o resto do país está com baixo crescimento econômico, ou então em recessão, é o Nordeste que tem puxado o país para frente, liderando o crescimento no Brasil. Sim, quem diria, o Nordeste sendo a locomotiva do país. Uma região que antes era assolada pela seca, a fome e a falta de oportunidades agora teve um governo que mudou a sua realidade. Vai muito além do Bolsa Família. Talvez você não saiba, ou porque nunca colocou os pés no Nordeste, ou porque só foi para curtir as praias e o Carnaval. Mas quem mora lá sabe. Não é lógico que um povo vote num governo que lhe fez bem?

“Mas todo mundo que eu conheço votou no Aécio!” Repito: saia da sua bolha. Sabe aquela diarista sua, que vai até sua casa uma vez por semana? Ou aquela manicure que fez as suas unhas na semana passada? Quem sabe até mesmo o seu porteiro, ao qual você raramente dá bom dia? Pois é, talvez eles todos tenham votado na Dilma. Talvez você até tenha perguntado a essas pessoas em quem elas iriam votar, e todas elas tenham dito que no Aécio. E talvez tenham votado mesmo. Mas talvez – e ressalto aqui o talvez – essas pessoas não se sintam à vontade para dizer a verdade para você. Infelizmente, o que mais tem se visto é pessoas terem que falar baixo ou se calar sobre votar na Dilma e no PT por medo de seus patrões, clientes, etc. Por um lado, é ótimo que o voto seja secreto, e que cada um possa fazer o que quiser, sem precisar dar satisfação a ninguém. Por outro, é triste o preconceito nas ruas, principalmente aqui em São Paulo, contra quem vota no PT. Chamam de “ignorantes”, “alienados”, “burros”, ou se acham que você está no “nível” delas, demonstram decepção com a sua escolha. “Nossa, mas pensei que você era uma pessoa esclarecida, como pode votar no PT?” Pois é, o problema é que, quem sabe, o ignorante pode ser você.

É claro, nem quero dizer aqui que todo eleitor do Aécio é ignorante. Se você disser que votou nele por causa da corrupção e realmente acredita nisso, então direi que sim, você está, no mínimo, mal-informado; caso contrário, talvez você esteja fazendo a escolha mais adequada aos seus interesses e às suas crenças pessoais. Se você acha que a meritocracia realmente funciona, que o Estado deve intervir menos na economia, deixando a maior parte dos serviços para a iniciativa privada, e que a desigualdade social não é um problema tão grave e que faz parte da sociedade, o Aécio parece ser mesmo a melhor opção para você. É uma opção informada, em conformidade com os seus interesses. Dito isto, não é lógico, portanto, que alguém que não concorde com essa visão de mundo vote também de acordo com seus interesses? Oras, o pobre querer votar num partido que se dirija a ele é apenas uma forma de defender seus interesses também. Igualmente para aquele que, mesmo de classe social similar à sua, discorde da sua ideologia, e acredite que o Estado deve, sim, intervir mais na economia, oferecer mais serviços públicos, e tentar reduzir as disparidades na sociedade. Um voto pode ser por falta de informação, mas também pode ser por pura e simples defesa de interesses. E se o rico faz isso, por que o pobre também não pode?

Por fim, eu queria ainda voltar à pauta do ódio. Porque uma coisa está bem clara: Aécio até poderia ter ganho as eleições, se não fosse o ódio e preconceito de muitos (não todos, provavelmente nem a maioria) de seus eleitores. Afinal, há uma insatisfação moderada da população com o governo atual, e muita gente estava disposta a tentar algo novo, dar uma chance. Mas esse discurso de ódio afastou um número considerável de pessoas e provocou a militância contrária de outras, o que foi determinante para virar a balança. Pois uma coisa é discordar do voto de alguém; outra muito diferente é ter ódio pelos adversários. Então vamos refletir: de alguma maneira, esse ódio é justificável? Ou será o ódio em qualquer circunstância justificável? Não imagino que alguém tenha tido a sua casa invadida por petistas, que roubaram tudo, estupraram e mataram toda a sua família. Aí sim daria para entender tanto sangue nos olhos, mas na ausência disso, por quê? Será que este ódio não é alimentado por uma mídia comandada por gente muito mais rica do que você, com interesses bem diferentes dos seus? Ou você acha que por ganhar 5 mil, 6 mil, quem sabe até 10 mil reais por mês, já faz parte da elite brasileira? Sabe de nada, inocente. Ou será então que este ódio é pela perda de privilégios, por ver outro tipo de gente, com a qual você não está acostumado a conviver, concorrendo pelos mesmos postos de emprego, as mesmas vagas nas universidades, jantando nos mesmos restaurantes e embarcando nos mesmos aviões rumo a Buenos Aires (pra não dizer Miami)? Bons tempos aqueles quando toda família de classe média podia ter sua empregada, não? Mas já parou para pensar que ela, a sua empregada, talvez quisesse ser também uma engenheira, uma advogada, ou uma médica? É este o seu medo?

E nem entremos no medo do Brasil virar Cuba, Venezuela ou Bolívia. Pra começar, a maioria dos brasileiros acha que sabe algo sobre esses países, mas não sabe nada. A Bolívia, a propósito, tem sido elogiada mundo afora pelo crescimento econômico e redistribuição social. Mas deixemos esses países de lado, pois o governo atual nem em plano quer ser parecido com esses países. A realidade é que já tivemos 12 anos de PT no governo federal e nunca, em nenhum momento, a nossa democracia entrou em risco. Não caminhamos um centímetro para o autoritarismo, muito menos para o comunismo.

Também esqueça esse discurso que o país está dividido. Democracia não é a tirania da maioria, mas uma forma de governo onde a vontade da maioria prevalece sem deixar de proteger os direitos das minorias. “Ah, mas a maioria não elegeu Dilma, porque tem os votos brancos, nulos, as abstenções...” Em quase nenhum lugar do mundo alguém se elege com a maioria absoluta do eleitorado. Disputas acirradas são comuns, assim como são divisões regionais. Nos EUA, o norte e o litoral são mais Democratas; o sul e o interior, mais Republicanos. No Reino Unido, o norte é mais Trabalhista; o sul, Conservador. E assim vai, assim que funciona a democracia representativa. Se você quer que o seu candidato vença da próxima vez, faça militância, converse com as pessoas, mostre que suas ideias são melhores. Sair pedindo impeachment e não aceitar a vontade da maioria é querer impor a sua à força.

Assim, se há um espectro que ronda o Brasil, não é o do comunismo, mas o do fascismo. Não por causa do governo, mas por causa de um discurso reacionário e conservador que ecoa com cada vez mais força na sociedade. Democracia significa aceitar a opinião dos outros quando ela for diferente da sua. Agora, se você está pregando a separação do país, ou assinou e divulgou uma lista de impeachment da presidente Dilma, você não é um democrata. Você é um fascista. Não é o PT que quer uma ditadura no país. Quem quer uma ditadura é você, onde apenas a sua opinião vale, apesar de ser minoritária. Pelo menos Aécio e grandes figuras do PSDB aceitaram a derrota e pediram a união dos brasileiros, prometendo não fazer uma oposição destrutiva. Está na hora de seguir o exemplo.

2 comentários:

  1. Obrigada pelo seu texto. Senti-me muito esclarecida pela forma explicada com que expôs seus pensamentos e a visão que teve acerca dos último acontecimentos.

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