terça-feira, 7 de outubro de 2014

Os bons protestam, os maus elegem



Depois da festa da democracia, veio a ressaca. E das fortes...

Marina Silva, que por várias semanas liderou a disputa para a presidência, acabou fora do 2º turno, numa arrancada de última hora de Aécio Neves. Em São Paulo, o PSDB não só assegurou, como reforçou o seu domínio no estado, apesar de todos os problemas (e são muitos), em especial a falta d’água. E ainda teve como deputados mais votados Celso Russomanno, Tiririca, Pastor Marco Feliciano e Bruno Covas (cujo assessor foi preso recentemente pela Polícia Federal com R$ 100 mil em espécie). Enquanto isso, no Rio de Janeiro, teremos um 2º turno entre Pezão (PMDB), sucessor do impopular Sérgio Cabral, e Crivella (PRB), ex-bispo da Igreja Universal e sobrinho de Edir Macedo. Além disso, Jair Bolsonaro e Clarissa Garotinho foram os deputados mais votados. E pra fechar com chave de ouro, de acordo com o Diap, temos o Congresso eleito mais conservador desde 1964. Parece que a única coisa a se dizer é: “Tudo aquilo que rolou em junho de 2013 foi para isso?”

Primeiro de tudo, a derrota de Marina ainda no 1º turno não é absurda. Eu já tinha alertado aqui no blog sobre os percalços que uma candidatura de 3ª via precisa enfrentar, e Marina não se saiu bem ao lidar com eles. O povo queria mudanças, mas acabou tendo, mais uma vez, o velho embate PT x PSDB, com Aécio aparecendo mais forte do que se esperava. Como explicar isso? Bem, a direita apoiou Marina até onde deu, na esperança de vencer o PT, mas vendo sua candidatura se esvaziar e suas chances de vitória diminuírem, migrou de volta em peso para o PSDB. Além disso, o que acontece geralmente na política – e isso em toda parte do mundo – é que, quando as pessoas querem mudança, elas não querem mudar exatamente tudo. Tipo, até querem, mas elas têm medo. Medo do novo, medo de arriscar, medo de experimentar algo que nunca provaram. Então elas mudam, sim, só que para o velho, o conhecido, o que não surpreende. E isso ocorre de forma até irracional. Por exemplo: o partido de esquerda no governo não investe direito na saúde pública. O que o povo insatisfeito faz? Elege o partido de direita, que vai lá, e tenta privatizar a saúde. O povo sabe que a direita é capaz disso? Até sabe. Mas a insatisfação e o desejo de mudança pode cegar o eleitor, fazendo um voto irracional apenas por fazer. Foi assim no Reino Unido, foi assim na Espanha... pode ser assim no Brasil.

E voltando ao nosso país, lembremos de junho. Sim, aquela massa de pessoas nas ruas, lutando por seus direitos, conseguindo impor uma derrota nos governos e colocando medo nos políticos. Foi um grande momento histórico. Ainda assim, que fique bem claro: junho de 2013 não foi um despertar do povo para tudo que há de errado na política; não foi um movimento revolucionário de esquerda de luta rumo ao socialismo; não foi nem uma revolta contra o governo do PT. Junho foi uma catarse, uma resposta caótica aos preços altos, à violência policial e à descrença na política. As pessoas estavam insatisfeitas e extravasaram isso nas ruas. E isso é bom, porque o brasileiro redescobriu o poder das ruas. Mas não foi algo muito além disso.

Ao mesmo tempo, é preciso lembrar outro fator: enquanto mais de 1 milhão foi às ruas, a maioria da população ficou em casa. Alguns dos que viram tudo da janela talvez quisessem se juntar ao povo, mas tiveram medo da violência; outros até estavam insatisfeitos, mas com outras coisas, e tinham medo das pautas nas ruas; enquanto uns outros poucos só estavam com medo, porque queriam manter tudo como estava. Ou seja, um monte de gente com medo, assistindo àquilo tudo sem entender nada. Um ano depois, todas essas pessoas tiveram agora a sua chance de dizer o que pensam nas urnas. E quem tem medo faz o quê? Se agarra nos candidatos que prometem restabelecer a ordem. Lembram que na Turquia houve protestos e mais protestos também? Pois é, na hora das urnas, o primeiro-ministro Recep Erdogan saiu vitorioso mesmo assim. A maioria das janelas assim decidiu.

Aí entra outro fator nestas eleições: a participação. Como agiu o eleitor insatisfeito com a política? Alguns podem ter apoiado a Marina, vendo-a como expoente, de fato, de uma nova política (seja lá o que isso for agora); outros, podem ter militado por candidaturas mais à esquerda, como a de Luciana Genro e Eduardo Jorge. Mas a verdade é que muita gente simplesmente se isentou de participar. Em São Paulo, a abstenção foi de 19,5%, enquanto os votos brancos e nulos totalizaram 17%; no Rio, a abstenção foi de 20,1%, e os votos brancos e nulos, 17,5%. E isso na votação para governador. Ou seja, 36% dos eleitores, mais do que o suficiente para impedir a eleição de Alckmin no 1º turno, simplesmente não participaram do pleito. Para deputados federais e estaduais então, os votos brancos e nulos foram próximos de 20% nos dois estados. E para o Senado, em São Paulo, pior ainda: chegou a 26,2%, o que contribuiu para a derrota de um dos melhores políticos brasileiros, Eduardo Suplicy.

Longe de mim, é claro, querer culpar os resultados assustadores nas eleições apenas em quem votou branco e nulo ou se absteve. Nem mesmo pretendo dividir a política no maniqueísmo do bem x mal. Mas a realidade é que tem muito eleitor consciente deixando de votar por desânimo, descrença, protesto, enquanto os maus eleitores – aqueles que só pensam no próprio umbigo, que vendem seu voto, que votam em qualquer um ou no primeiro santinho que veem pela frente –, esses continuam votando. O voto nulo, como protesto, é apenas isso. Não impede ninguém de se eleger; pelo contrário, até facilita. Quem vê a sujeira na política e se torna descrente pode se ausentar de participar dela, mas quem contribui para o retrocesso, como os reacionários, os que vendem seu voto, os fundamentalistas, etc, esses vão continuar elegendo o que há de pior. E são eles que vão governar.

A imagem no começo do texto serve para ilustrar como se sente esse eleitor. “PT ou PSDB, tanto faz!” Mas será mesmo? Por mais críticas que se possa fazer ao governo atual, há ainda fortes diferenças ideológicas entre os dois partidos e, em especial, entre suas bases eleitorais. Agora, no 2º turno entre Dilma e Aécio, é razoável concluir que nenhum projeto representa exatamente como você pensa. Contudo, é bom pensar se um voto crítico não é melhor. Uma vez, um colega espanhol levantou uns números mostrando que os votos na direita espanhola eram praticamente sempre os mesmos a cada eleição; não cresciam, nem desciam muito. O que mudava, no entanto, era o número de votos que a esquerda recebia. Sempre que houvesse uma decepção com a esquerda, a abstenção crescia, e era o suficiente para a direita vencer as eleições. Portanto, é preciso pensar se é isso que o Brasil quer daqui para frente, pois podem ter certeza de uma coisa: vendo, enfim, a possibilidade de retornar ao governo depois de 12 anos, a direita vai usar todas as suas armas para vencer. Estejam preparados: serão semanas árduas até 26 de outubro.

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