segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

Votamos na Dilma, elegemos o Aécio



A realidade é mais dura do que o esperado. Depois de uma campanha tomada por um discurso de esquerda, acusando os adversários de quererem governar para os mais ricos e o mercado, e de plantar juros para colher desemprego, a presidente reeleita Dilma Rousseff faz justamente tudo o que criticou. Primeiro, seu governo eleva os juros; agora, nomeia Joaquim Levy para ministro da Fazenda, sinalizando uma guinada à direita nos rumos da economia.

E quem é Joaquim Levy? Com doutorado na Universidade de Chicago, ninho do pensamento neoliberal, Levy é um economista que teve passagens pelo FMI e o Banco Central Europeu, além de ter trabalhado em ambos os governos FHC e Lula. Mais recentemente, antes de assumir o ministério, o economista ainda trabalhava para o Bradesco. Porém, o mais notável de sua trajetória é a sua fama pela insistência no corte de gastos, o que lhe valeu o apelido de “mãos de tesoura”. É mole?

Tudo bem, nós sabemos que, no fim das contas, há poucas diferenças entre um governo do PT e do PSDB. A diferença é que do PSDB a gente já sabe o que esperar, e não é nada de bom; do PT, ainda mantemos alguma esperança, alguns raios de luz ainda surgem no horizonte. Desta vez, no entanto, o horizonte é sombrio. Não bastasse a contradição entre a Dilma candidata e a Dilma reeleita, escolher um rumo de austeridade para a economia, enquanto a Europa sofre e questiona a eficácia da mesma, é um tremendo retrocesso. Não só para a economia, mas também para a política, pois reforça a crença de que os partidos e os políticos são todos iguais.

Só que a escolha não é por mera preferência ideológica, ou porque a direita neoliberal tem um receituário mais eficaz para superar a crise. A nomeação de Levy tem um motivo muito menos nobre: agradar o mercado. Sim, esta entidade mítica, sem rosto, que aterroriza líderes políticos que pretendem mexer na economia. Dilma tinha perdido a credibilidade do mercado e dos investidores, que apoiaram em peso a candidatura de Aécio, e agora faz um agrado para tentar fazer as pazes. Algo similar ao que Lula fez em seu 1º governo, depois da “Carta ao Povo Brasileiro”, para assegurar ao mercado que iria manter a política macroeconômica de seu antecessor.

Contudo, se Dilma perdeu a credibilidade do mercado e dos investidores, não é só por causa do fraco crescimento da economia e do intervencionismo de seu governo, mas também pela falta de diálogo. A atual presidente não dialogou com os setores produtivos, que ficaram ressentidos com o seu governo, além de nunca saberem o que esperar. Agora, para compensar a falta de diálogo, dá de presente o ministro dos sonhos, assim como um pai que compra um presente caro para o filho para compensar sua ausência. Tanto que ouvi de um investidor que, se soubesse que Dilma nomearia Levy para o ministério da Fazenda, teria votado nela.

Agora, o problema é que todo presente tem seu preço. No caso de Dilma, ele será primordialmente político. Será que o eleitorado que a apoiou terá paciência para tolerar a sua contradição? Não sabemos ainda o grau de liberdade que Levy terá à frente do ministério; afinal, lembremos que Dilma também é economista e gosta de dar seus pitacos no assunto. De qualquer modo, dependendo da profundidade de medidas austeras na economia, será que o povo vai ficar calado com um eventual aumento de desemprego, dos juros e um arrocho salarial? Dilma foi reeleita justamente para coibir esse tipo de política. Com essa guinada, entretanto, a presidente apenas reforça a ideia de que o poder político é absolutamente submisso ao poder econômico. No fim, talvez o mercado saia mesmo feliz dessa história. Dilma e o PT, por outro lado, podem estar cavando a sua cova política e preparando o cenário para a entrada de Aécio em 2018. E aí sim, teremos uma direita sem (tantas) contradições no poder.

Nenhum comentário:

Postar um comentário