terça-feira, 20 de janeiro de 2015

Charlie Hebdo e a liberdade de ofensa



Primeiro de tudo, o assassinato dos editores e cartunistas do jornal Charlie Hebdo por radicais islâmicos foi um massacre atroz e injustificável, que deve ser condenado de todas as formas, sem ressalvas. O extremismo também não deve ser visto como privilégio do Islã: como disse o colunista da Folha, Ricardo Melo, não há muita diferença entre as Cruzadas e os jihadistas, a não ser o tempo histórico. Radicais violentos existem em praticamente todas as grandes religiões organizadas, fruto do fundamentalismo, e não de suas respectivas religiões em si.

Dito isso, reitero que sou um grande defensor da liberdade de expressão, principalmente quando envolve o humor. Acho que os limites que o humor deve receber são pelas vaias, não pela censura. Mesmo assim – apesar das boas intenções dos que o adotam em defesa da liberdade de expressão e contra o extremismo religioso – temo dizer que não posso aderir ao slogan “Je suis Charlie”, ou “Eu sou Charlie” em bom português.

Explico: Charlie Hebdo é um semanário de caricaturas de orientação de esquerda que satiriza a extrema direita, diferentes religiões, como o catolicismo, o judaísmo e o islamismo, entre outros temas. Seus defensores alegam que esse é o seu forte, o de atacar todos igualmente, no mesmo tom. Só que isso não é verdade, e este é justamente o problema de Charlie Hebdo: a falsa simetria.

Publicar desenhos que colocam Jesus numa situação constrangedora é ofensivo aos cristãos, é verdade. Mas, no cristianismo, não há muito problema em se colocar representações artísticas de Jesus. O problema surge, portanto, quando se aplica esta mesma lógica ao islamismo. No Islä, é proibida a representação do profeta Maomé em imagens. Por quê? Porque sim, é a crença deles, e fazer o contrário constitui uma ofensa. Não é necessário entender, basta aceitar. Assim, quando um jornal publica charges, mesmo que não tão constrangedoras envolvendo Jesus em uma página e Maomé em outra, não é possível dizer que ambas religiões, o cristianismo e o islamismo, receberam o mesmo tratamento. Para os primeiros, pode se constituir num mero incômodo e sensação de desrespeito; para os últimos, pode ser uma grave ofensa. É como queimar uma Bíblia em praça pública ao mesmo tempo que se queima um livro budista. São atos que, simplesmente, não possuem o mesmo valor simbólico para cada religião.

Compreendo a intenção do semanário de ousar para atacar toda e qualquer dogma religioso. É uma postura audaciosa, polêmica, possivelmente até válida nos dias atuais, embora o debate seja extremamente delicado. Mas ainda há outra questão mais relevante nessa história: o papel que cada grupo religioso desempenha na sociedade. O cristianismo, no Ocidente, é dominante. Quando este é atacado, atinge-se a maioria, cujos membros podem recorrer uns aos outros e têm poder para reagir. Quando atacamos o Islã, mesmo a nível global, estamos atacando as crenças de países na periferia mundial, que sofrem com ditaduras, pobreza e diversas outras formas de opressão. Dentro das sociedades ocidentais, então, a situação é pior, pois se constituem de grupos minoritários, já discriminados em seus ambientes escolar, de trabalho e em suas comunidades, o que os coloca em situação fragilizada.

Considere, por exemplo, uma analogia do ambiente escolar. Zombar do menino popular na escola tem graça por um tempo, o garoto pode até ficar constrangido, mas vai levar mais facilmente na esportiva, porque sabe que, no dia seguinte, tudo volta ao normal e ele continua do mesmo jeito, cheio de amigos, namoradas, etc. Por outro lado, é fácil zombar do menino desajeitado, tímido, gordo, sem amigos e que não tem a quem recorrer. Leve este garoto ao limite, e você pode ter reações inesperadas e brutais, como pegar uma arma e sair atirando em todo mundo. Depois, pensarão que ele era um monstro, mas não será um monstro fabricado?

Já conheci e convivi com diversos muçulmanos. Todos eram as pessoas mais gentis e honestas que já vi na vida, e toda vez que ocorria algum atentado envolvendo radicais islâmicos, eles ficavam com muito, muito medo, pois sabiam que iria sobrar para eles. E, realmente, sempre sobra, vide os ataques a muçulmanos ao redor do mundo, até mesmo no Brasil, que não tem nada a ver com a história. Coloque pessoas já discriminadas em seu limite e podemos criar monstros. Serão sempre a minoria, mas eles vão surgir. Devemos compreender que o extremismo religioso surge não por causa da religião em si, mas ele floresce onde há pobreza, miséria, rancor. Não é um problema do islamismo, nem do Corão; afinal, se lermos a Bíblia no seu sentido literal, é possível justificar (erroneamente) inúmeras atrocidades em nome de Cristo também. O problema é que temos a tendência de demonizar o que não conhecemos, e o diálogo tão necessário entre as diferentes crenças encontra-se cada vez mais distante na Europa e pelo resto do mundo.


O Charlie Hebdo errou, portanto, ao atacar minorias já oprimidas e submetidas a constantes humilhações na França. Claro que, como dito no primeiro parágrafo, e considerando todo o exposto acima, tudo envolvendo o massacre permanece absolutamente condenável e injustificável. Mas a liberdade de expressão não deve adquirir o significado de liberdade de ofensa, principalmente quando desmedida e desenfreada, ganhando a conotação de discurso de ódio. Em um mundo em que o choque de civilizações está cada vez mais presente, zombar o que desconhecemos só serve de combustível para a discórdia. Humor audacioso e que mexe com as mazelas da sociedade é bem-vindo, mas se ele ataca minorias, gerando protestos, violência e mortes, devemos repensar se esse tipo de humor vale a pena.  

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