sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

A derrota do Movimento Passe Livre: por que junho de 2013 não se repetiu?



Na última quarta-feira (18/02), o MPL (Movimento Passe Livre) organizou um evento carnavalesco de protesto contra o aumento das tarifas de ônibus e metrô, mas quase ninguém se importou. Sem muito alarde, os atos organizados pelo movimento desde janeiro foram perdendo força gradualmente até serem esquecidos quase por completo pela mídia e pelo resto da população. Declara-se oficialmente, portanto, a derrota do MPL, e a “vitória” dos governos municipal e estadual de São Paulo na queda de braço pelo aumento das tarifas. Mas o que ocorreu desta vez? Por que o MPL não conseguiu repetir os grandes atos de junho de 2013? Será que a população não aceitou um aumento de 20 centavos, mas tolerou um de 50?

Primeiro, é preciso lembrar que as jornadas de junho de 2013, como já foi dito aqui no blog, nunca foram essencialmente sobre os 20 centavos. Claro, o símbolo foi esse, mas os protestos se tornaram grandes em repúdio à violência da Polícia Militar, que reprimiu os atos com força desproporcional. Depois, é claro, isso se uniu à insatisfação geral com a política no país e o aumento do custo de vida nas grandes cidades, onde entra, enfim, a questão das tarifas. Em outras palavras, junho foi, na verdade, um acidente histórico, no qual o MPL teve a sorte de estar no lugar e na hora certa. Ainda que o movimento tenha algum mérito pelas mobilizações, acredite, ele é menor do que parece.

Dito isso, há uma conjunção de fatores para o contexto de 2015 que explicam o fracasso dos atos. De início, é possível citar a esperteza – advinda do conhecimento histórico – do prefeito Fernando Haddad. Estabelecer o aumento das tarifas para janeiro não foi por acaso: a escolha se deveu, em boa parte, por motivo de ser um mês de férias escolares. O que tem a ver? Bem, certamente o prefeito já leu muito sobre maio de 1968, na França. Naquele mês – resumindo a história – estudantes saíram às ruas de Paris em protestos anticapitalistas, que foram logo acompanhados de greves gerais dos trabalhadores franceses. O escopo dos atos foi tão grande que havia o temor até de uma revolução comunista (contexto de Guerra Fria), o que forçou o governo de Charles de Gaulle a dissolver o Parlamento e convocar novas eleições. Os protestos iam bem até que... começaram a se desmobilizar em junho. Um dos principais motivos? Férias escolares. Muitos universitários, que compunham grande parte dos manifestantes, voltaram para suas casas no interior com o fim das aulas; ou seja, estudavam em Paris, mas suas casas eram em outros lugares. Além disso, o ambiente estudantil era um epicentro de discussão e mobilização. Perdendo este espaço com as férias, houve uma grande desmobilização dos atos, que perderam força e acabaram morrendo na praia.

Voltando para o Brasil, em 2015, é certo que grande parte dos que vão aos atos do MPL são estudantes. Longe das universidades em razão das férias, alguns em suas cidades de origem, ou simplesmente sem o espaço universitário para discussão e mobilização, os atos não teriam tanta força; como, de fato, não tiveram. Junte a isso a decisão do prefeito de conceder passe livre (pauta do MPL) aos mesmos estudantes. Beneficiando os mais interessados em protestar, Haddad atacou a raiz dos atos, desmobilizando-os de dentro para fora.

É importante citar outra questão também: o descrédito sofrido pelo MPL depois de junho. Ele cresceu em apoio após junho, é verdade; no entanto, muitas das pessoas que saíram às ruas daquela vez se sentiram traídas pelo movimento quando este cancelou novos atos após a queda das tarifas de volta a R$ 3,00. Uma vez nas ruas, a população indignada queria continuar colocando sua insatisfação contra a política institucional para fora. Porém, quando olharam para o MPL em busca de um guia para essa catarse generalizada, o movimento recuou e abandonou aqueles que saíram às ruas para apoiá-los na causa das tarifas. Pode não ser exatamente como ocorreu, mas foi como muitos se sentiram: traídos e abandonados. A verdade é que o Movimento Passe Livre teve a história nas mãos; todavia, preso à pauta única dos transportes, recuou quando tudo ficou grande demais. O problema é que este recuo não seria perdoado por aqueles que descobriram as ruas pela 1ª vez.

Além disso, há outro problema: a violência. Compreende-se aqui violência dos dois lados: dos manifestantes e da polícia. Por parte dos manifestantes, não chega a ser realmente deles, mas pelo que veio a ser conhecido como black blocs. Surgindo nos momentos finais das jornadas de junho, os black blocs, ao promoverem ataques a símbolos do governo e do capital, intimidaram aqueles que queriam participar dos atos de forma pacífica (a maioria da população). A atuação deste grupo motiva, por outro lado, maior repressão da polícia, outro fator que desestimula a adesão aos atos. Se as pessoas repudiam a violência policial, elas também a temem, e se percebem que há grupos que provocam a polícia a agir, certamente terão pouco interesse em participar dos protestos.

Por fim, é importante notar que o momento do país é muito diferente. Em 2013, havia uma insatisfação latente com a política no país, mas nenhum problema muito urgente. No começo de 2015, o cenário é totalmente diferente: crise econômica, inflação, um enorme escândalo de corrupção, falta d’água, desgaste severo do governo, e crise de legitimidade da democracia representativa no país. Quando se leva tudo isso em consideração, o problema do aumento das tarifas parece pequeno demais para se levar a sério. Até existe uma vontade da população sair às ruas; entretanto, 50 centavos não parece ser mais o motivo certo, mesmo que simbólico. No fim, o que tem ocorrido é que as pessoas têm extravasado a vontade de se manifestar pelos motivos errados, como os que pedem o impeachment da presidente Dilma Rousseff (ver post anterior). Perde-se o foco para os problemas reais do país enquanto a vontade de expor a insatisfação continua presente, o que não deixa de ser um legado das jornadas de junho.

Sendo assim, se junho de 2013 não foi tanto mérito do Movimento Passe Livre, o seu fracasso em 2015 também não é tanto sua culpa. Aliás, considerando a discussão gerada em torno de sua pauta, o pedido de auditoria por parte da prefeitura sobre os custos e lucros do transporte público municipal, a adoção de passe livre a estudantes, etc, é possível dizer que o movimento obteve mais sucessos do que qualquer outra coisa. Contudo, não foi desta vez que foi possível barrar o aumento de tarifas. Hoje, o foco da sociedade é outro; portanto, que outros movimentos sociais consigam mobilizar esta insatisfação para os grandes problemas que assolam o Brasil. O momento do país pede por isso. E urgente.

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