sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

O recado do PMDB



"Não, não são as estrelas que vão me guiar. São as escolhas que vão me levar." Com esta mensagem enigmática, o PMDB abriu o seu programa político na noite de ontem (26/02), após inúmeras chamadas na TV pelas últimas semanas convidando os brasileiros a assisti-lo. No fim, após tanto drama, qual foi então o recado que o PMDB tinha a dar para o Brasil?

Primeiro, tratemos da mensagem enigmática de abertura. A primeira frase não deixa muitas dúvidas: é uma clara referência ao PT (lembrando que o seu símbolo é uma estrela). Ou seja, é para ficar bem claro que o PMDB não vai ser submisso ao PT. Já a segunda frase deixa algumas questões no ar. Que escolhas seriam essas?

O resto do programa tentou então explicar, e continuou com uma série de falas dos piores (ou melhores?) quadros do PMDB: Michel Temer, Kátia Abreu, Helder Barbalho, Renan Calheiros, Eduardo Cunha, etc, todos com cargos de grande escalão no governo falando de promessas vazias, como a de uma reforma política que sirva aos interesses da sociedade (partindo, justamente, do partido menos interessado em fazê-la? Faz-me rir), e ressaltando como o PMDB é o maior partido do Brasil. Parece ufanista falar disso, mas lembremos: se Dilma sofre impeachment, entra o vice. Partido? PMDB. Se ele cai, entra o presidente da Câmara. Partido? PMDB. Se ele também sai fora, entra o presidente do Senado. Partido? Adivinha. Volta à pergunta, então: quem manda mesmo neste país?

Mas voltando ao tema das escolhas, parece que o PMDB realmente acredita (ou quer que o brasileiro pense isso) que o partido foi escolhido pela sociedade para governar o país. Afinal, todos ali foram eleitos pelo povo brasileiro, por que não? Mas talvez a melhor tradução do que significam essas “escolhas” ficou para a fala de Eunício Oliveira, líder do partido no Senado. O próprio senador já havia dado uma dica do que o programa seria em outra entrevista (ver aqui); contudo, em um certo momento do programa de ontem, ele diz: “Porque eu entendo que o primeiro e maior sentimento de um parlamentar deve ser o da honra. O da honra de ter o crédito da sociedade, de ter sido escolhido como seu representante. E, como tal, jamais promover algo que não seja do interesse dela. Como líder do maior partido do Brasil, é meu dever levar esse sentimento às últimas consequências.”

Podemos interpretar algumas coisas desta fala, em particular dos trechos destacados. Considerando o atual clima pesado na política nacional, com um aumento do antipetismo e chamados crescentes de impeachment da presidente Dilma Rousseff, a mensagem soa o seguinte: enquanto não for um sentimento dominante da sociedade, o PMDB não vai apoiar um impeachment. No entanto, se parecer esta a vontade da sociedade civil, juntando-se à ausência de concessões de poder do PT ao PMDB, o partido não vai hesitar em se rebelar e levar tudo às últimas consequências; ou seja, derrubar o governo atual.


A mensagem, portanto, está dada. O PT deve agir rápido se quiser manter o seu mais importante – e mais perigoso – aliado. A tentativa de se desvencilhar do PMDB para governar com outros aliados fracassou, como mostra a recente aprovação do projeto de lei que dificulta a fusão para criar novos partidos, intenção de Gilberto Kassab. Agora, resta fazer mais concessões ao partido ou enfrentar a fúria de quem participou praticamente todos os governos desde a redemocratização. Num momento frágil como este, restam poucas opções para o PT a não ser agradar seu semialiado. Pelo contrário, o recado foi dado. Que a presidente Dilma não pague para ver.


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