terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

O significado da vitória de Eduardo Cunha



Se você acompanhou os noticiários dos últimos dias, leu que Eduardo Cunha, deputado federal pelo PMDB do Rio de Janeiro, foi eleito presidente da Câmara de Deputados para os próximos 2 anos. Isso o coloca como o 3º na linha de sucessão presidencial; ou seja, na ausência (ou no famigerado impeachment) de Dilma Rousseff e seu vice, Michel Temer, é ele quem assume a presidência da República.

Quem é Eduardo Cunha? Imagine o tipo de político que o Brasil menos precisa, e este é o cara. Dizendo-se numa cruzada contra “gays, abortistas e maconheiros”, o peemedebista é um conservador fundamentalista que já propôs projeto de lei para proteger heterossexuais de discriminação (?), e se posiciona contra todas as pautas progressistas. Se não fosse o bastante, age como lobista do poderoso setor de telecomunicações: lutou furiosamente contra o Marco Civil da Internet, e já garantiu que não vai permitir que passe a regulamentação dos meios de comunicação, um dos projetos do PT para este mandato. Isso sem falar em inquéritos e acusações relativas a corrupção. E como cabe ao presidente da Câmara a decisão de que projetos colocar em pauta, tenham a certeza que ele fará de tudo para impedir a votação de leis importantes para o país.


E o que significa a sua eleição? Primeiro de tudo, significa que o Congresso Nacional (incluindo aqui o Senado, que reelegeu Renan Calheiros como presidente da casa) está totalmente desconectado da sociedade brasileira, desprezando as vozes das jornadas de junho de 2013. Os deputados elegeram um presidente que está interessado em beneficiar apenas a sua classe e aqueles que o financiaram, nada mais. Portanto, esqueçam a reforma política: nas mãos de Eduardo Cunha, ela será apenas um engodo.

Além disso, Eduardo Cunha é opositor do governo. Sim, apesar de ser do PMDB e do seu partido fazer parte do governo, ele é desafeto da presidente Dilma Rousseff, e já garantiu que o seu mandato colocará a Câmara como “independente” do Executivo. Se ele, sozinho, fosse o problema, tudo bem, mas o PMDB em peso votou nele, mesmo contra a vontade do Planalto. E isso traz um significado ainda mais trágico: apesar da montagem de um ministério monstruoso, chamando nomes absurdos para diferentes pastas – tudo em prol da “governabilidade” –, o governo do PT não conseguiu sequer eleger o presidente da Câmara que queria. Em outras palavras, para que raios serviu tudo aquilo então, todas essas concessões aos partidos da base aliada?

Isso só prova um ponto que o PT insiste em não admitir, que o partido chafurda cada vez mais fundo na lama em prol da tal da governabilidade, e não percebe que não recebe compensação por isso. Que fique bem claro: o PMDB não gosta do PT. Boa parte dos partidos da base aliada (de direita, inclusive) não gosta do PT. Eles simplesmente toleram a aliança porque estar no governo é cômodo, e podem alcançar seus interesses mais facilmente. O PT é tolerado, nunca benquisto. A melhor representação disso foi o vídeo infame de José Sarney votando em outubro do ano passado: com um broche da Dilma, as câmeras o flagram votando em Aécio. Esta é a melhor representação do PMDB e da base aliada do PT: dizem que são aliados, mas agem nos bastidores contra o governo.

Além disso, o PT, parecendo ignorar a crescente rejeição que o partido enfrenta, foi extremamente irresponsável e imaturo neste episódio. Se realmente quisesse colocar um aliado na presidência da Câmara, deveria ter indicado um nome de alguém de outro partido, e não de um petista, como Arlindo Chinaglia. Como não o fez, o 2º governo de Dilma já sofreu seu primeiro grande revés, e terá que aguentar um presidente da Câmara que fará de tudo para aterrorizar o Planalto e colocar seus interesses acima daqueles do governo.

Junto ao pacote de ajustes fiscais do governo, caminhamos em direção a anos bem difíceis. Prometendo mudar o sistema, o PT segue sendo engolido pelo mesmo, cavando a sua cova e se preparando para a sua derrota iminente em 2018. Talvez, quando ocorrer, tenham a cara de pau de se perguntarem o que fizeram de errado. Porém, a pergunta mais sensata talvez seja qual foi a última vez que fizeram algo certo. Venceu Eduardo Cunha; perdeu o PT, perdeu o governo, perdeu o Brasil.

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