segunda-feira, 16 de março de 2015

Um novo junho?



15 de março de 2015 chegou e trouxe grandes manifestações por todo o Brasil. De acordo com o Datafolha, apenas em São Paulo, na região da Av. Paulista, cerca de 210 mil pessoas foram à manifestação. Nem se compara com as manifestações convocada pela CUT dois dias antes, no dia 13/03, em defesa da Petrobras, da democracia, dos direitos trabalhistas e da reforma política, que reuniu, também de acordo com o Datafolha, 41 mil pessoas (note que no ato de sexta-feira, a PM minimizou o número de manifestantes, calculando 10 mil presentes. Já no ato do domingo, calculou cerca de 1 milhão. Tendenciosos? Imagina!). Assim, ainda de acordo com o Datafolha, este seria o maior protesto na capital paulista (e no país) desde as Diretas Já. Será que estamos, portanto, entrando em um novo ciclo de protestos como em junho de 2013?

Primeiro de tudo, devo dizer que discordo da conclusão do Datafolha. É preciso lembrar que o instituto não mediu o número de manifestantes na segunda-feira do dia 17 de junho de 2013, quando os atos do Movimento Passe Livre atingiram um ápice em São Paulo. Estando presente naquele momento histórico, e de acordo com algumas estimativas, acredito que o número de manifestantes naquele dia era levemente superior ao de ontem. Além disso, no dia 20 de junho de 2013, pesquisadores estimam que 300 mil pessoas saíram às ruas na Candelária, no Rio de Janeiro. Um número, portanto, superior aos de ontem em São Paulo.

Em segundo lugar, não é possível afirmar a possibilidade de um novo junho pura e simplesmente porque junho nunca acabou. O espírito de junho se mantém bem vivo e, hoje, estamos apenas testemunhando um desdobramento de um processo que começou naquele período. O gigante que acordou nunca voltou mesmo a dormir, mas se manteve desperto, desorientado e irritado, fazendo emergir, de tempos em tempos, a sua fúria contra tudo e contra todos.

Este processo, é verdade, não teve um resultado claro nas urnas, a não ser com o aumento de abstenções e de votos brancos e nulos, além de um desgaste do petismo, apesar da (apertada) reeleição de Dilma Rousseff. Contudo, nas ruas, o efeito se manteve claro, com um aumento de greves e manifestações, além de uma mobilização política maior de movimentos de direita. Lembremos que junho de 2013 começou com atos organizados por um grupo de esquerda, o Movimento Passe Livre, que, porém, trouxe indivíduos à rua, a maioria pela 1ª vez, incomodados com os excessos cometidos pela PM, além da insatisfação latente com a corrupção, a inflação e o alto custo de vida. Trazendo pautas de direita, como a rejeição aos partidos e um discurso anti-governo, eles causaram um recuo da esquerda, fazendo com que os protestos perdessem o foco e acabassem se dispersando. Todavia, estas pessoas que aprenderam a força das ruas pegaram o gosto da coisa, e o desejo de voltar para lá permaneceu. Ontem foi apenas o resultado deste anseio latente que voltou a florescer.

Algo notável – e inegável – do ato de ontem é que era predominantemente de pessoas brancas de classe média. Em junho, a periferia acabou se juntando aos protestos, embora tardiamente; desta vez, esta adesão é mais improvável, embora o eventual aumento do desemprego deva acender a insatisfação dentre as camadas mais pobres com o governo Dilma. A faixa etária dos presentes também era mais alta do que o comum, condizente, também, com a adesão de grupos não-tradicionais tardiamente nas jornadas de junho, depois dos jovens e estudantes darem início aos atos.

Além disso, como previsto, as pautas eram bastante difusas: alguns queriam o impeachment; outros queriam uma intervenção militar, esbanjando faixas e pedindo “socorro” às Forças Armadas e à comunidade internacional para protegê-los do bolivarianismo e do comunismo (?); e mais uns outros, provavelmente a maioria, esteve presente para expressar a sua insatisfação com a corrupção, a piora da economia, etc, sem necessariamente defender alguma das outras duas causas. Como o ato atraiu bastante atenção, saindo das redes sociais e ganhando a mídia tradicional, ele foi tratado como um evento social, ganhando um clima mais de festa (e pelo vestuário das pessoas, parecia Copa do Mundo) do que de protesto, o que ajudou a inflar o número de participantes, apesar do discurso ainda virulento de ódio e repleto de antipetismo. Entretanto, pelo mesmo motivo, e diferentemente de junho, o ato não deve desencadear uma série de grandes protestos diários. A enorme maioria dos manifestantes não é ativista tradicional, não tendo, portanto, o pique e a disposição para se dedicar diariamente à causa. Mesmo assim, outro ato foi marcado para o distante dia 12 de abril, que, salvo se acontecer algum fato novo, deve atrair menos participantes do que ontem.

Dito isso, em termos de repercussão política, o PT ainda está mais perdido que cego em tiroteio. É verdade que a grande massa dos manifestantes é de gente que não votou na Dilma e, portanto, não tem tanta moral para se dizer “traída” pela campanha da então candidata. Por outro lado, também é verdade que a insatisfação com o governo já não é mais restrita a uma elite branca, e é crescente entre setores mais carentes, seja por se sentirem enganados pelas promessas de campanha quebradas, seja pela visível e progressiva piora na economia. Tentar culpar essa burguesia por não aceitar o resultado nas urnas é uma meia verdade. O resto da história o PT ainda não entendeu bem, e faz papel de ridículo ao culpar apenas o golpismo ou então o ex-presidente FHC.

Ao mesmo tempo, a oposição ganha ânimo, mas sem conseguir destaque. O mais notório destas manifestações é que nenhum político conseguiu capitalizar muito bem essa insatisfação desde junho. A princípio, Marina Silva conseguiu surfar nessa onda, mas nem o falecimento de Eduardo Campos, que abriu caminho para a sua candidatura à presidência, conseguiu impulsioná-la como liderança no país após seus sucessivos erros políticos. Aécio Neves nem tentou ir ao ato: preferiu ficar na varanda de seu apartamento em Ipanema, acenando à distância. Por fim, nem mesmo Jair Bolsonaro, “ídolo” de muitos dos manifestantes, conseguiu sair por cima: ao ser chamado para discursar, sofreu fortes vaias dos presentes, fazendo-o desistir da ideia. A lógica das manifestações segue ainda na aversão à política tradicional, o que deixa a oposição sem saber muito como agir. Mesmo se alguns políticos mais desastrados embarcarem na ideia de impeachment, a maioria vai continuar, por enquanto, cautelosa em relação ao assunto, aguardando os desdobramentos tanto das investigações quanto dos protestos.

E qual é a solução para tudo isso? Obviamente, os atos erram o alvo ao centrar o fogo na presidente Dilma ou no PT (ver post anterior). Porém, se em junho os protestos começaram com a esquerda, e depois a direita sequestrou as pautas, o inverso pode ocorrer agora. A direita começou um novo momento de protestos; talvez seja hora, portanto, da esquerda começar a agir e tentar levar a pauta para o seu lado, mais especificamente focando na reforma política, questão de suma importância e abordada aqui nas últimas postagens do blog. Esta é a esperança dos governistas, inclusive: o alvo passaria a ser então o Congresso, colocando pressão para que este aprove uma reforma política que atenda mais aos interesses da sociedade do que os seus próprios, dando um respiro à presidente Dilma, que pouco pode fazer a respeito sem o apoio dos deputados e senadores. Mesmo assim, verdade seja dita, é um grave erro da presidente se omitir neste momento tenso em que seus eleitores estão ficando nervosos e impacientes.

Assim, a oportunidade que se apresenta agora, em uma nova série de manifestações pelo país, não deve ser desperdiçada. Como disse Vladimir Safatle numa recente entrevista, a Nova República acabou. Que este seja então o momento de refundar a democracia no Brasil. O gigante está nervoso e tem pressa. Ou então, corremos o risco de cair em tentações autoritárias, tudo que o país menos precisa.

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