sábado, 4 de julho de 2015

O futuro nas mãos da Grécia



Amanhã, ocorrerá o referendo que pode decidir o futuro da Grécia e da Europa. Os gregos terão a opção de dizer “sim” ou “não” ao plano de ajuda financeira e austeridade oferecido pela “troika” (Comissão Europeia, o Banco Central Europeu e o Fundo Monetário Internacional). Muitos, no entanto, têm erroneamente interpretado o referendo como uma decisão sobre a Grécia permanecer na zona do Euro e até mesmo dentro da União Europeia. Só que a questão é muito mais complexa do que isso.

Caso o “não” vença, o primeiro-ministro grego, Alexis Tsipras, do partido Syriza, prometeu voltar à mesa de negociações com novos termos, amparado pela vontade do povo grego. E aí, sabe-se lá o que o futuro espera. Caso o “sim” vença, isso será uma derrota do governo, que prometeu renunciar se for este o resultado.

Na realidade, a Grécia já sofreu muito com a famosa austeridade implementada nos últimos anos. Sim, o Estado grego era inchado, com alguns benefícios insustentáveis e mal utilizados. Sim, os governos anteriores foram irresponsáveis de adquirirem dívidas impagáveis. E, sim, dívidas adquiridas devem ser pagas. Porém, a Grécia tem feito de tudo para pagar essa dívida, e o que o seu povo ganhou? Uma queda no PIB de cerca de 25%, um desemprego também de 25%, um êxodo das melhores cabeças do país, e assim vai. Um país em frangalhos, que perdeu a confiança em si mesmo.

Agora, pensando o outro lado, da “troika”, até que ponto querem levar a Grécia para que esta pague suas dívidas? Muito já foi pago, e os juros continuam a se acumular. Não seria hora, então, de perdoar ao menos parte da dívida? Renegociar os termos para que o país consiga se reerguer, até por uma questão humanitária? Ou os bolsos de banqueiros, que já estão cheios, são mais importantes do que a situação socioeconômica de uma nação inteira?

O povo grego, cansado dos partidos tradicionais e de uma política que arrasou o seu país, elegeu um partido não-tradicional de esquerda, Syriza, justamente para acabar com a austeridade. Desde então, o primeiro-ministro Tsipras, junto a seu destemido ministro das Finanças, Yannis Varoufakis (provavelmente o único ministro das Finanças a ser celebrado e abraçado no meio da rua pelo seu povo) têm lutado ferozmente contra o que a “troika” tenta impor ao povo grego. Por outro lado, a mesma "troika", encabeçada pelo líder da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker, coloca a Grécia contra a parede, evitando negociar termos mais favoráveis com o Syriza com medo de que outros países, como Portugal, Espanha, ou até mesmo Itália, sigam pelo mesmo caminho. O sucesso do Syriza abriria as portas para outros movimentos similares conquistarem o mesmo em seus países, e é o que esse grupo menos quer. Assim, sacrifica-se a Grécia para salvar um sistema antidemocrático, submisso ao poder financeiro e que ameaça o sonho de uma Europa unida.

Mas o perigo de um fracasso do Syriza é ainda maior. Como David Harvey já disse numa entrevista, com a perda de confiança do povo grego nos partidos tradicionais, se o Syriza fracassar, a alternativa que resta é o fascismo, representado pelo partido Aurora Dourada. Afinal, em um cenário de crise, é natural que as pessoas recorram aos extremos. A Europa já conheceu o resultado de permitir que movimentos de extrema-direita cheguem ao poder, e nunca chegamos tão próximo de um cenário assim, com uma crise econômica forte e uma onda de xenofobia, em mais de 70 anos. Será mesmo que vale a pena destruir o Syriza – tudo em prol de um lucro maior – para colocar alguém bem mais perigoso à Europa no lugar?

As pesquisas de opinião, no momento, estão divididas. Embora o “não” tenha começado bem à frente, o medo com relação ao futuro fez com que muitos gregos mudassem de ideia e defendessem o “sim”. Eles não querem mais austeridade, mas também não querem sair da zona do Euro nem sair da União Europeia. Uma amiga grega admitiu que, com dor no coração, iria votar “sim”, pois acha que o seu país está à beira da ruína e, infelizmente, o governo do Syriza não tinha apresentado nenhum plano para o futuro, o que a deixava insegura. O medo, neste caso, venceu a esperança. Porém, ela acredita que o clima na Grécia seja de uma vitória do "não", apesar de ninguém saber o que pode ocorrer.

De fato, o grande desafio para a esquerda grega (e mundial) é oferecer um futuro plausível, que não seja apenas um sonho, de alternativa à austeridade e ao controle financeiro sobre a política. A política não pode ser feita apenas de belos discursos e ideais bonitos, as pessoas também querem ações. E enquanto a esquerda fracassar em apresentar uma alternativa aos desmandos da direita e do capital financeiro, principalmente quando for chamada para assumir o governo e arrumar a casa, ela sairá mais enfraquecida e perderá mais terreno na disputa política.


De qualquer modo, o resultado do referendo de amanhã deve balançar as estruturas da Europa. A escolha é entre a resignação de um caminho sem saída ou um tiro no escuro pela esperança de um futuro diferente e melhor. O sistema financeiro e os líderes da troika pedem para que os gregos votem “sim”; a esquerda e intelectuais ao redor do mundo pedem para os mesmos digam “não”. Há quem diga que votar “não” significa colocar tudo a perder. Mas para quem não tem mais nada, aceitar mais uma humilhação pode representar a perda de nada – a não ser de si mesmo. A decisão, todavia, é somente dos gregos. Os inventores da democracia, ironicamente, decidirão os rumos de seu país e da Europa através do voto. Que prevaleça a vontade do povo.

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