quarta-feira, 8 de julho de 2015

Precisamos de outro 7x1



Há exato 1 ano, eu estava lá no Mineirão, em Belo Horizonte, assistindo ao fatídico Brasil x Alemanha que nunca vai ser esquecido. Meu relato desta experiência pode ser lido aqui, mas se eu pudesse acrescentar algo, diria que saí levemente otimista de lá. Afinal, uma tragédia destas havia de causar alguma mudança séria na administração do futebol brasileiro, fazer as pessoas repensarem tudo que estava ocorrendo ao seu redor. Que nada... estava redondamente enganado.

A comissão técnica praticamente se abdicou da responsabilidade, dizendo que até ali tinha sido um trabalho bem feito. A CBF agiu como se não fosse com ela. Os jogadores trataram como se fizesse parte do esporte. E tudo seguiu como antes... ah não, espera, pior: aí pra resolver a questão, eles trouxeram o Dunga de volta. Assim, nada contra a pessoa dele, mas é como se estivessem tentando curar um paciente com uma droga já tentada anteriormente. "Tenta de novo, vai que agora dá, né?" E o brasileiro? Fizeram protestos, depredaram a sede da CBF? Nada. Aceitaram passivamente, como se não tivesse jeito mesmo.

Só que não ficou por aí, muito menos restrito ao futebol. Logo em seguida, tivemos possivelmente o pior processo eleitoral desde 1989, elegendo o Congresso mais conservador desde 1964, e com um nível de debate extremamente baixo. No último minuto, uma matéria suja de uma revista desonesta tentou mudar o resultado do jogo, mas não foi o suficiente. Só que talvez teria sido melhor se mudasse: reelegemos uma presidente que fez campanha de esquerda para, logo em seguida, jogar todo o discurso fora, adotar uma agenda de direita e fazer tudo aquilo que tinha prometido não fazer.

Já deu? Espera, que tem mais. O candidato derrotado, não sabendo perder, mesmo que por pouco (bola na trave não é gol, amiguinho), fez um circo junto a seus eleitores, questionando o resultado e entrando numa cruzada para desmoralizar o sistema eleitoral. Como isso não deu certo, agora ele e seu partido embarcam na aventura de tentar derrubar a presidente a qualquer custo. Esta que, diga-se de passagem, conseguiu o “mérito” de ter uma aprovação tão alta quanto o índice de inflação, ficando na corda bamba seja por lambanças nas contas públicas, seja por um escândalo de corrupção que atinge tudo e todos.

No meio da disputa entre um partido desmoralizado que contou lorotas para se manter no poder e outro que faria a mesma coisa, mas age como se não tivesse nada a ver com isso, um presidente da Câmara dos Deputados, que deve estar assistindo muito a uma série do Netflix, manda e desmanda no país, atropelando o regimento e a Constituição, e jogando com governo e oposição, que tentam ambos agradá-lo. Aprova-se então a doação de empresas a partidos políticos – o cerne de toda a corrupção – em uma reforma política mais falsa que nota de 3 reais, e adota-se uma agenda conservadora que busca soluções simples e ineficazes para problemas graves, como a redução da maioridade penal.

E, para piorar, o grande público aplaude. Não só aplaude como participa da barbárie. Protestos contra a corrupção vestindo a camisa de uma instituição corrupta, pedidos de intervenção militar, marchas organizadas por adolescentes que mal entraram na universidade, mas já acham que sabem mais que os professores, um horror que só. E pior, tudo baseado na crença de que um partido personifica a corrupção no país. Sim, apenas um partido e seus membros é que são o problema. Aí fazem vídeo nervosinho no YouTube, agridem pessoas na rua, fazem adesivos que simulam a presidente sendo violentada, lincham e amarram no poste o suposto bandido, buscam a justiça com as próprias mãos... e tudo travestido de um nacionalismo fajuto conjugado a um ódio pelo próprio povo. Contraditório? Imagina, é apenas Brasil.

Ah, já ia esquecendo do futebol. Foi preciso que a justiça dos EUA (oi?) prendesse o presidente da CBF, e nem assim as coisas mudaram. Sai o número seis, entra o meia dúzia. Sabe como é... futebol, feijoada, e nada acontece. Ou melhor, tudo se repete. Neymar fica fora da Copa (América) depois de jogo contra a Colômbia e Brasil perde (de novo) para o Paraguai nos pênaltis (outra vez). Nem o futebol feminino, coitado, que não tem nada a ver com a história, conseguiu dar alegria (aliás, alguém viu ou ouviu falar na TV brasileira que havia Copa do Mundo de futebol feminino?). Perderam para a fraca Austrália num jogo tão ruim que pareciam os homens jogando.

Tudo isso só me leva a concluir como fato uma piada que se consagrou: 7x1 foi pouco, muito pouco. Na verdade, não foi nada. O Brasil merece mais. Parece que outro 7x1, seja na área que for, é iminente, questão de tempo. Que assim seja, então. Quem sabe outra tragédia acorde, enfim, o brasileiro para a realidade. Ou talvez não, talvez eu esteja sendo levianamente otimista outra vez. O grau de insensatez cresceu tanto que virou passeio. Pois é... precisamos mesmo de outro 7x1. E urgente.

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